– GILSON PERANZZETTA – BANDEIRA DO DIVINO (BRAZILIAN STANDARDS) –
O que ainda não foi escrito sobre Gilson Peranzzetta ? Pianista,
maestro, compositor e arranjador reconhecido internacionalmente por
Quincy Jones, Michel Legrand, Dianne Schurr, Maria Schneider e outras
personalidades, segundo Lucho Gatica "é um super músico".
Com 37 CDs gravados, Peranzzetta perpetuou um primoroso trabalho de
piano solo, o primeiro da sua carreira neste lançamento da
Delira Música. O repertório reúne um
caleidoscópio de standards de alguns dos principais autores
brasileiros: Garoto, Ivan Lins, Villa-Lobos, Tom Jobim, Cartola,
João Bosco, Mauricio Einhorn, Caetano, Gil, Edu Lobo, Luiz
Gonzaga , além de duas composições suas.
Numa época em que vários pianistas são exaltados
como autênticos fenômenos por seu virtuosismo exacerbado,
Gilson sempre foi avesso a extroversões, embora sua
técnica nada deva a qualquer outro. O
autodomínio das suas improvisações repletas de
forma e estrutura, seu supremo bom gosto e acentuado feeling,
além do inerente balanço de execução,
são pontos eminentes da sua fecunda criatividade.
Seu talento indiscutível comprova ser um improvisador que
explora as facetas melódico-harmônicas de cada
canção com emoção, nuances e sutilezas.
Tudo provém da sua imaginação, retendo o essencial
e descartando clichês.
A música fala por si. A fluência e o balanço de
Lamento no Morro marcam uma interpretação repleta de
entusiasmo e continuidade. Seu tratamento lírico-reflexivo de
alta sensibilidade na música-título, transformou-a num
poema tonal, assim como Love Dance, João e Maria e Obsession
também são impregnados de delicadeza e tintas tonais. Sua
concepção em As Rosas Não Falam evoca
longinquamente Rachmaninoff e a escola romântica européia.
Ele explora inteligentemente as acentuações
rítmicas de Domingo no Parque, dá seu toque pessoal ao
conhecido Asa Branca; revela alto senso de humor ao emular o arcaico
estilo ragtime na introdução de "Estamos Aí", para
a seguir dar-lhe um tratamento ultra-sincopado de abundante
balanço. A introdução de Ponteio emula
música clássica, precedendo outra
improvisação esfuziante, e sua imaginação
realça o perfil melódico de Luz do Sol.
Mais uma vez, Gilson Peranzzetta acertou na mosca, tocando inteiramente
à vontade, como se estivesse em sua sala de estar. Obras-primas
como esta não aparecem com freqüência. Este
sério candidato a melhor CD do ano continuará sendo
ouvido nos próximos 20, 30 ou 40 anos. Afinal, não
é todo dia que aparece um Gilson Peranzzetta.
José Domingos Raffaelli
– CÉLIO BALONA / CLÓVIS AGUIAR / MILTON RAMOS - PROJETO BRASIL, DE ANTONIO A ZÉ KÉTI –
Minas Gerais é um grande celeiro de músicos deste
país, comprovado mais numa vez em "Projeto Brasil, de Antonio a
Zé Kéti" (Independente). Reunindo um trio de primeira
categoria com Célio Balona (acordeão, teclados e voz),
Clóvis Aguiar (piano e teclados) e Milton Ramos (baixo), oferece
música brasileira repleta de beleza melódica,
refinamento, bom gosto e sensibilidade.
O repertório inclui Insensatez, Beatriz, O Trenzinho do Caipira,
Velas Içadas, Assum Preto, Valsinha, Consolação,
Canção da Manhã Feliz (Haroldo Barbosa & Luiz
Reis) , Bala com Bala, Da Cor do Pecado, Wave, O Trem Azul (Lô
Borges & Ronaldo Bastos), As Rosas Não Falam e
Máscara Negra.
O trio absolutamente integrado dispensa a cada melodia um tratamento de
alta musicalidade, sem.decibéis, excessos, extroversões
ou exibicionismos A essência da música está na
comunicação entre intérpretes e ouvintes. Essa
interação é realizada através do
conhecimento que possuem de melodia, harmonia e ritmo, além do
superior instinto musical requerido para esta forma de arte,
expressando seu talento como autênticos artesões musicais.
O elevado nível das interpretações dispensa
maiores comentários e análises, deixando para o ouvinte a
tarefa de exercitar sua percepção e suas
reações esquadrinhando as maravilhas que o trio perpetuou
neste lançamento.
José Domingos Raffaelli
– ESDRA NENÉM FERREIRA & MAURO RODRIGUES – SUITE PARA OS ORIXÁS –
Sem dúvida alguma, este é um dos mais sérios e
ambiciosos trabalhos gravados nos últimos tempos. Os resultados
são tão surpreendentes quanto criativos e, não por
acaso, Suíte Para Os Orixás (Independente) recebeu este
ano do BDMG Cultural o Prêmio Marco Antônio Araújo
de "Melhor CD Independente de Música Instrumental" do
período junho 2006/abril 2007. Sua temática foi
desenvolvida pelo baterista Esdra Neném Ferreira a partir dos
cantos originais do candomblé, cabendo ao flautista Mauro
Rodrigues elaborar as orquestrações dos 11 segmentos
(faixas) da suíte com esmerado requinte. Antes que alguém
pense tratar-se de meros batuques inconseqüentes dos tambores
africanos, deve-se ressaltar a seriedade do projeto com um tratamento
orquestral mesclando partes sinfônicas às melodias
desenvolvidas em desdobramentos temáticos sobre ritmos sutis
mais complexos do que ouvimos habitualmente.
Com o sexteto integrado por Neném, Mauro Rodrigues,
Sérgio Aluotto (vibrafone e marimba), Ivan Corrêa (baixo),
Ricardo Cheib e Guba (percussão) e uma orquestra de cordas,
além dos convidados Renato Motha (voz), Carlos Ernest Dias
(oboé), Kiko Mitre (baixo) e Guto Ferreira (percussão),
ouvimos uma fascinante viagem por um terreno musical pouco explorado,
um trabalho original de real magnitude melódico-rítmica
diferente de tudo que ouvimos, distante anos-luz de qualquer
ranço de música comercial de consumo fácil.
Além dos solos inventivos de Mauro Rodrigues, devemos destacar o
soberbo trabalho de Esdra Neném Ferreira, em soberba forma, cujo
patriarcal domínio do instrumento reflete-se na inventiva
distribuição, acentuações de complexos e
variados ritmos deslocados e o absoluto controle da dinâmica que
o consagraram como um dos bateristas mais musicais, inspirados e
criativos de todos os tempos em nosso país. Os
interessados podem adquiri-lo pelo email <maurorod@uai.com.br>.
José Domingos Raffaelli
- JUAREZ MOREIRA – JUAREZ MOREIRA -
Um dos mais articulados e inventivos violonistas, guitarristas e
compositores brasileiros, Juarez Moreira reedita outra
atuação de gala no seu último CD, reunindo a nata
dos músicos mineiros em 14 composições de sua
autoria.
Como instrumentista, pouco há a acrescentar sobre Juarez, cuja
categoria é reconhecida internacionalmente. Seus patriarcais
solos repletos de invenções
melódico-harmônicas, essência, continuidade,
fluência e originalidade elaboram improvisações
eloqüentes e inspiradas. Como compositor, é um arquiteto
musical de primeira classe, criando melodias com forma, estrutura,
finesse harmônica e conteúdo, variando do romântico
e nostálgico às mais ebulientes. .
Para as 14 interpretações, de trio a um conjunto de 11
integrantes, Juarez selecionou a nata dos músicos mineiros:
Wagner Tiso (piano), Nivaldo Ornelas (sax-tenor e flauta), André
Dequech (piano e teclados) e Paul Sérgio Santos (clarinete),
Celso Moreira (guitarra), Cléber Alves (sax-soprano), Mauro
Rodrigues (flauta), Lincoln Cheib e Esdra Neném Ferreira
(bateria), Kiko Mitre e Jorge Helder (baixo) e Ricardo Fiúza
(teclados). Os arranjos são de Juarez e André
Dequech.
Cada faixa possui atrativos suficientes para reter a
atenção do ouvinte, com solos, acompanhamentos e arranjos
estimulantes. A nostálgica 1970, o samba Carioca com altas doses
de suingue, a soberba integração do quinteto em Serafim,
a sutileza da melodia Valsa para os Beatles (com notável solo de
Paulo Sérgio Santos), o dueto empolgante de Juarez com Wagner
Tiso em Encapetado, a singela e nostálgica Cine Pathé, o
suingue efervescente do trio Juarez-Kiko Mitre-Neném em Pro
Tavinho, o encantador dueto de Nivaldo e Juarez em Belle Époque,
a sensacional fusão de baião com música barroca
mineira em Baião Barroco é um verdadeiro achado, as
substituições harmônicas com surpreendentes acordes
de Juarez em Wes (tributo ao guitarrista Wes Montgomery) formam um
conglomerado musical repleto de genuína emoção
dando relevantes destaques a esta realização. Os
interessados na aquisição deste lançamento podem
fazê-lo através do email <juarezmoreira@metalink.com.br>.