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J.D.R.'s Short Stories on Music and Music Personalities
O maestro Moacir Santos foi um dos maiores compositores e arranjadores
brasileiros de todos os tempos. Suas composições
refletiram sua originalidade, revolucionando nossa música em
termos melódico-harmônico-rítmicos, obra de um
talento incomensurável que idealizou essa perfeita
amálgama musical afro-brasileira.
Desiludido com a reduzida aceitação de sua música
por parte da imprensa e do público, em 1967 ele foi tentar a
sorte nos Estados Unidos, onde seu talento foi reconhecido
imediatamente, gravando alguns discos em seu nome e também
compondo e arranjando para os estúdios americanos..
Entretanto, como ocorre com muitos artistas, sua obra imorredoura foi
reconhecida no Brasil três décadas depois. O violonista
Mario Adnet e o saxofonista Zé Nogueira debruçaram-se no
legado imortal de Moacir Santos, criando a Orquestra Ouro Negro para
tocar suas composições, desencadeando um verdadeiro
revival que culminou com a gravação de três
magníficos CDs.
Deve-se exaltar o entusiástico trabalho de Mario Adnet e do
saxofonista Zé Nogueira à frente da Orquestra Ouro Negro
para manter viva a obra monumental do maestro. Esse esforço e
tenacidade da dupla abriu as portas para as novas
gerações conhecerem sua obra, bem como atrair a
atenção da imprensa e do público em geral. .
A convite de Mario Adnet e Zé Nogueira, Moacir Santos esteve
três vezes no Brasil, quando ouviu emocionado a Orquestra Ouro
Negro interpretar sua obra. O maestro faleceu em 6 de junho de 2006, em
Pasadena, Califórnia, onde vivia com sua família.
Realizou-se na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro, em 21 de
novembro de 2006, uma homenagem póstuma a Moacir Santos
premiando o conjunto da sua obra, com as presenças de sua esposa
e seu filho. A Orquestra Ouro Negro abrilhantou a cerimônia
tocando as composições do saudoso maestro. o
público.
Acompanhei a carreira de Moacir Santos desde sua chegada ao Rio
há "alguns séculos". Bonachão e sempre
bem-humorado, tudo estava bem para ele. Várias vezes ele tocou
sax-tenor nas jam sessions que organizei juntamente com alguns amigos
jazzófilos. Bons tempos em que as jams sessions
eram freqüentes e apareciam dezenas de músicos sedentos para tocar jazz.
Aproveito para relatar um fato pitoresco da minha vida
jornalística - no mínimo insólito - ligado ao
saudoso maestro. Há anos escrevi no Jornal do Brasil uma resenha
altamente favorável sobre o seu clássico disco "Coisas",
lançado pelo selo Forma. Dias depois, eu e Moacir fomos acusados
pelo xenófobo crítico José Ramos Tinhorão,
nas páginas do mesmo jornal, de "traidores da música
brasileira vendidos ao imperialismo americano". Chega a ser
cômico de tão ridículo, não acham ?
Até que seria uma boa caso o governo americano me destinasse uns
trocados cada vez que escrevi sobre jazz – juro que teria ficado rico,
pois foram milhares de vezes!
Perguntar não ofende: será que o governo brasileiro
pagava ao trêfego crítico para defender a música
popular brasileira contra "jornalistas vendidos ao imperialismo
americano"?
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O saxofonista e band-leader Charlie Barnet foi uma ave rara no mundo do
jazz. Descendente de uma família de bilionários, que
planejavam para ele uma carreira de alto executivo na
organização presidida pelo pai, que era o "Rei do
Açúcar" nos Estados Unidos, tornou-se uma espécie
de ovelha negra ao contrariar a vontade de seus pais, que não
contavam com o "desvio" do jovem Charlie ao ser inoculado pelo
micróbio do jazz ainda garoto, tornando-se um fanático
fã de Duke Ellington. Cada vez mais empolgado, aos 16 anos
Charlie tocava saxes tenor e soprano, decidindo mais tarde formar sua
orquestra. Como dinheiro não era problema, aos 26 (?) anos
organizou sua primeira orquestra, emplacando um grande sucesso ao
gravar o clássico "Cherokee", que foi seu prefixo musical. .
Jovem, alto, educado, simpático, amável, sorridente e
herdeiro de fortuna incalculável, ele despertava a cobiça
das moças casadoiras e suas respectivas mães, que
incitavam as filhas a tentar conquistá-lo. O assédio era
intenso e implacável. Paralelamente,.esse assédio
favorecia seus desejos, tornando-se um conquistador voraz. Com seu
charme e sua fortuna, dava-se ao luxo de abordar quantas moças
quisesse, pois candidatas nunca faltaram. Com essa facilidade, perdeu a
conta de quantas namorou. No reverso da medalha, ele caiu no
laço de algumas delas, apaixonando-se e casando. No total, foram
13 casamentos e 22 filhos! Desnecessário acrescentar que, com
tantos casamentos e sucessivos divórcios, suas pensões
alimentícias eram verdadeiras fortunas, que, entretanto, jamais
abalaram suas inesgotáveis finanças.
Na carreira de músico, sua orquestra fazia enorme sucesso e ele
pagava a seus músicos os maiores salários do mercado.
Isso aguçava o desejo da maioria em tocar na sua orquestra,
originando casos engraçados e anedotas – que serão
registrados numa próxima ocasião.
Para dar uma idéia do poder econômico de Charlie Barnet,
relato um episódio ocorrido no final de 1964, quando ele gozava
sua lua-de-mel com a 11ª esposa, uma lindíssima morena
chamada Betty. O casal usufruía dessa viagem de núpcias
cruzando o Pacífico no iate de 250 mil dólares que Barnet
mandara construir especialmente para esse cruzeiro.
Durante esses dias, ele teve a idéia de organizar uma grande
festa quando regressassem. Colocando mãos à obra,
ainda no iate, Barnet telefonou para o San Jacinto Country Club, em
Palm Springs, reservando-o para uma festa com 100 convidados. Marcada a
data, telefonou para Duke Ellington contratando-o por 10.000
dólares para tocar com sua orquestra.
O evento foi um sucesso estrondoso. O luxo, o esplendor e a fartura
imperaram com bebidas de todo tipo, ampla variedade de caviar,
canapés, salgadinhos, refrigerantes, doces, sorvetes, chocolates
e inúmeras guloseimas. Entre os convidados estavam
presentes músicos (trompetistas Billy May e Bobby
Burnet, trombonista Juan Tizol, cantor Nat King Cole, maestro e
pianista Stan Kenton e baterista Ben Pollack, entre outros), o
crítico Leonard Feather e o empresário Carlos Gastel. A
orquestra de Ellington encantou os convidados com sua música
imortal, homenageando o anfitrião no encerramento da festa com
um arranjo especial de "Cherokee" – e poderia ser outra ? Foi
verdadeiramente uma festa de arromba que começou às 22
horas e terminou por volta das cinco da matina. Em se tratando de um
arquimilionário, não poderia ser diferente.
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Uma das mais famosas obras de George Gershwin é "Rhapsody in
Blue", que projetou ainda mais seu nome pela beleza da sua melodia
inconfundível de majestosa grandiosidade. Sua première
aconteceu em 12 de fevereiro de 1924, no Aeolian Hall, em New York. O
maestro Paul Whiteman comissionou Gershwin para compor uma obra
sinfônica com elementos de jazz. Tudo indicava que a empreitada
seria um sucesso, pois nada mais natural unir Whiteman, maestro de
orquestra mais popular da época, a Gershwin, autor de
notáveis scores para grandes musicais da Broadway.
Gershwin começou a burilar exaustivamente a
peça, dando maior ênfase à segunda parte ou
elaborando o final apoteótico para resultar num tratamento
sinfônico imponente que marcasse a obra como uma das grandes
realizações musicais do século 20. Após
três árduas semanas de trabalho, Gershwin levou a
partitura de piano para Whiteman, que encarregou o arranjador Ferde
Grofé, autor da famosa "Grand Canyon Suite", para dar à
obra o tratamento refinado que desejava.
Após exaustivos ensaios, chegou a aguardada noite de
estréia. A publicidade anunciava pomposamente o concerto como
uma "Experiência de Música Moderna". O evento foi um
sucesso, causando forte impacto no público, nos músicos e
na crítica. Com o próprio Gershwin ao piano como solista,
a interpretação de "Rhapsody in Blue" encantou a
platéia, que acompanhou entusiasticamente seus diversos
movimentos.
A partir desse dia, Gershwin ganhou maior dimensão pela
capacidade de criar obras extensas de conteúdo importante. Foi
sua consagração definitiva.
Alguns críticos referiram-se a ele como compositor de jazz,
influenciados pelo fato de Whiteman anunciar "Rhapsody in Blue" como
"obra de jazz sinfônico". Outros afirmaram tratar-se de "obra
sinfônica séria de música tipicamente americana". A
relação de Gershwin com o jazz foi tênue e
efêmera, apenas evidente na parte do "Blues" de "An American in
Paris". Suas composições tornaram-se parte do
repertório jazzístico devido às suas melodias e
harmonias serem favoráveis à improvisação,
mas pertencem estritamente ao terreno da canção popular
americana. Gershwin compôs dezenas de músicas que se
tornaram populares em todo o mundo. Outra das suas
criações imortais foi a ópera "Porgy and Bess",
que se tornou conhecida em todo o mundo.
Depois de "Rhapsody in Blue", a fértil inventiva de Gershwin
gerou outras três composições extensas de grande
porte: "Concerto for Piano", Concerto in F" (considerada por alguns
musicólogos superior a "Rhapsody in Blue") e "An American in
Paris", que são parte integrante da eternidade artística
do autor.
"Rhapsody in Blue" ocupa um lugar de honra no panteão do legado
imortal de Greshwin, é atemporal, inscrevendo-se entre suas
obras mais populares. Suas gravações multiplicaram-se, de
Paul Whiteman a Duke Ellington, da Orquestra Boston Pops a Glenn
Miller, da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, a Enrico
Rava, de André Kostelanetz a Spike Jones. – a lista é
virtualmente interminável. É importante observar que, em
qualquer gravação dessa obra, a introdução
originalmente criada para clarinete que identifica sua melodia é
parte indissolúvel da cultura musical dos nossos dias e,
certamente, será nos tempos futuros.
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José Domingos Raffaelli
Os músicos de jazz sempre foram fontes inesgotáveis de
histórias curiosas, anedotas e "causos" hilariantes. Há
milhares de histórias verdadeiras que são tão
engraçadas como qualquer anedota, valendo a pena
contá-las.
O saxofonista Paul Gonsalves, um dos principais solistas da orquestra
de Duke Ellington, bebia bastante e vivia em permanente estado
etílico. Durante um concerto, adormeceu em pleno palco. A
orquestra continuou tocando, mas nada perturbava Gonsalves, que dormia
a sono solto. Durante uma música, enquanto o trompetista Willie
Cook tocava seu solo no microfone à frente da orquestra, chegava
a vez de Gonsalves. Preocupado, o trombonista Buster Cooper acordou-o
para que fosse à frente. Completamente tonto, Gonsalves foi
trocando pernas em direção ao microfone. Nesse exato
momento Cook terminou seu solo e o público aplaudiu
demoradamente. Gonsalves deu meia volta e sentou-se na sua cadeira sem
ter soprado uma única nota. Sorridente, voltou-se para Cooper e
disse: "Viu como gostaram do meu solo? Ainda estão me
aplaudindo".
Dizem que Ellington, no alto da sua austeridade, quase teve um troço....
Outro que bebia muito era o saxofonista Ben Webster.
Abusava tanto da bebida que nunca se recordava de nada. Certa noite,
totalmente embriagado, Webster tocava no clube Ronnie Scott´s, em
Londres, quando avistou o cantor Billy Eckstine. Atirou-se com tanto
ímpeto ao velho amigo que ambos rolaram no chão.
Levantaram-se, abraçaram-se e passaram o resto da noite
conversando e bebendo. No dia seguinte, ao chegar sóbrio no
clube, fato muito raro, o proprietário Ronnie Scott dirigiu-se a
ele:
Scott: - Você e Billy conversaram um bocado ontem à noite, não?
Webster: - Eu e quem ?
Scott: - Você e Billy Eckstine. Pelo papo que tiveram, esgotaram todos os assuntos.
Webster: - Homem, você andou bebendo ? Não vejo Billy Eckstine há uns oito anos.
O baterista Buddy Rich internara-se num hospital para
ser operado. Na véspera, a enfermeira-chefe entrou em seu quarto
para preencher o questionário de praxe. Depois de perguntar e
anotar seu nome, idade, profissão e endereço, indagou se
era alérgico a alguma coisa, ao que Rich respondeu prontamente:
- Música country.
Certa noite o trombonista Tommy Dorsey foi ouvir o octeto do
clarinetista Joe Marsala, do qual diziam maravilhas. Terminada a
apresentação, empolgado pelo que ouviu Dorsey contratou
no ato sete músicos da banda de Marsala, deixando o clarinetista
a ver navios.
Dias depois, a renovada orquestra de Dorsey apresentou-se num clube e Marsala enviou-lhe um telegrama com estes dizeres:
- Tommy, que tal me contratar para sua banda assim poderei tocar com a minha ?
O baterista Art Blakey era um inveterado conquistador.
Não podia ver uma mulher bonita e logo a assediava. Uma noite,
uma linda moça solicitou seu autógrafo no camarim do
Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, depois de uma
apresentação do seu conjunto Jazz Messengers, em 1977.
Enquanto atendia ao pedido, Blakey não perdeu tempo para
fazer-lhe uma proposta indecorosa. A moça recusou ofendida:
- O que é isso ? Sou uma mulher casada!
Blakey: - Querida, você não precisa dizer nada a seu marido.
O quinteto do contrabaixista Oscar Pettiford foi contratado para
tocar num pequeno clube (do tipo que aqui chamamos de inferninho)
no bairro Greenwich Village, em New York. Ao chegarem, não havia
luz no clube, que estava em total escuridão. Guiados pela
lanterna do um garçom, os músicos dirigiram-se ao
minúsculo palco. Abrindo a tampa do piano, o pianista Dick Katz
constatou horrorizado que faltavam várias teclas no teclado do
instrumento. Imediatamente, disse a Pettiford que não poderia
tocar, ao que o baixista replicou que tocasse assim mesmo, pois
não havia como conseguir outro piano.
Pettiford e seus músicos tocaram dois sets num total de quase
três horas, e Dick Katz dedilhou seu instrumento como podia, sem
conseguir qualquer resultado satisfatório. Terminada a noite,
Pettiford foi receber o cachê do dono do clube, que lhe disse:
- Seu conjunto é muito bom, mas despeça o pianista porque ele é muito ruim.
Em meados dos anos 50, quando o rock tomara conta
da juventude mundial qual um tsunami, os músicos e compositores
do estilo eram incensados pelos fãs, críticos,
empresários e editores musicais. Esta historinha aconteceu
quando o conhecido saxofonista, compositor e arranjador de jazz Ernie
Wilkins foi ao escritório da sua editora musical registrar uma
nova composição.
Recebido pelo diretor, este se deleitava ouvindo um disco de rock que
fazia furor na parada de sucessos, cujas músicas eram de um
cliente seu. Entusiasmado, o editor disse a Wilkins:
- Não é fantástico pensar que esta
canção formidável foi escrita por um garoto de
apenas 13 anos?
Wlkins, que ouvira pacientemente o disco, apenas respondeu.
- Francamente, é fantástico. Eu pensei que essa música fosse de autoria de um garoto de 4 anos....
No mesmo período o compositor e arranjador
Shorty Rogers gravou uma série de discos de rock aproveitando a
onda de sucesso para faturar um bom dinheiro.
- Organizei uma orquestra com os melhores músicos
disponíveis e um excelente conjunto vocal, mas não foi
nada fácil. O conjunto vocal era formado por ótimos
cantores, mas não conseguiam reproduzir o autêntico som do
rock. Foi preciso muito tempo e muitos ensaios para eles conseguirem
cantar desafinados como faz o pessoal do rock.
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O conflito entre Estados Unidos e Iraque lembra-nos um episódio
emocionante ocorrido no campo de batalha da Segunda Guerra Mundial, que
alguns historiadores garantem ser verdadeiro. O relato que se segue
é uma prova de que o jazz só faz amigos.
Americanos e alemães fizeram uma trégua entre o Natal de
1944 e o Ano Novo de 1945. No primeiro dia, alguns soldados americanos
aproveitaram o cessar-fogo temporário para ouvir discos de jazz
numa vitrola portátil movida por uma manivela que acionava o
motor.
No dia seguinte, um soldado alemão caminhou rumo à
trincheira americana empunhando uma enorme bandeira branca. Recebido
inicialmente com muita desconfiança e falando inglês
razoavelmente, o alemão disse que no silêncio da noite
anterior ouvira o som da alguns discos de jazz que vinha da trincheira
americana. Identificando-se como pianista de jazz, pediu licença
para juntar-se a eles a fim de compartilhar a audição da
música que ele mais amava, no que foi prontamente
atendido.
Depois das primeiras palavras, os americanos revistaram-no,
certificando-se de que o propósito do alemão era
realmente juntar-se a eles para ouvir jazz. Após a
autorização do seu comandante para o alemão
integrar-se a eles, o gelo inicial dos americanos deu lugar à
cordialidade, passando o resto do dia ouvindo os V-Discs que o governo
americano prensara especialmente para os soldados no campo de batalha.
Fascinado, o alemão ouviu gravações que nem
supunha existirem, inclusive fazendo comentários pertinentes
sobre o que ouvia. No fim da tarde, ele voltou para sua trincheira,
não sem antes pedir licença para retornar no dia
seguinte, sendo prontamente atendido.
Nos dias subseqüentes, como velhos conhecidos, os americanos e o
alemão continuaram a audição de discos e a
camaradagem entre eles aumentava à medida em que a
música rolava. Aqueles dias de trégua foram
abençoados, fazendo-os esquecer momentaneamente os horrores da
guerra ouvindo Duke Ellington, Count Basie, Eddie Condon, Frank
Sinatra, Bing Crosby, Les Brown, Teddy Wilson, Benny Goodman, Tommy
Dorsey, Ella Mae Morse, Benny Carter, Joe Bushkin, Bunny Berigan, Harry
James, Teddy Powell, Woody Herman, Ella Fitzgerald, Coleman Hawkins,
Lester Young, Jimmy Dorsey, Perry Como, Nat King Cole e tantos outros
artistas americanos. As conversas eram animadas, comentavam as
músicas em seus mínimos detalhes, trocavam idéias
e opiniões, brotando uma sincera amizade entre eles,
protagonistas de uma guerra estúpida que o destino colocou-os
como inimigos.
Essa confraternização prolongou-se por toda a
trégua, terminando ao entardecer do dia de Ano Novo de 1945,
porque as hostilidades recomeçariam na manhã seguinte.
Segundo os relatos, a despedida foi comovente. Todos se
abraçaram formando um círculo. Chorando emocionados,
despediram-se como velhos amigos, prometendo que depois da guerra se
encontrariam para festejarem a paz e ouvirem muitos discos de jazz.
O relato não informou se o encontro pós-guerra foi
realizado, porém deixou a certeza, mais uma vez, se ainda fosse
necessário, que o jazz realmente só faz amigos.
José Domingos Raffaelli
A música popular brasileira ganhou prestígio
internacional a partir dos anos 60, quando a bossa nova foi acolhida
pelos músicos de jazz americanos, tornando-se um fenômeno
mundial.
Como todas as artes, a bossa nova tem uma pré-história
cujos principais precursores, nos anos 40, foram o violonista Garoto,
tocando harmonizações alteradas e dissonantes, o pianista
Dick Farney e o compositor Custodio Mesquita, cujos maiores sucessos
foram dois fox-trots ao melhor estilo americano (Mulher e Nada
Além). Na mesma época, o conjunto vocal Os Cariocas
inovou utilizando harmonizações ousadas assimiladas dos
grupos vocais americanos.
Os anos 50 revelaram músicos e compositores influenciados por
jazz que introduziram novidades melódico-harmônicas,
principalmente o pioneiro pianista e compositor Johnny Alf. Suas
atuações no bar do Hotel Plaza, no Rio de Janeiro, em
1953/54, atraiam a atenção dos jovens músicos e
cantores que, cativados por suas inovações, iam ouvi-lo
todas as noites, entre eles J oão Gilberto (cantor e violonista
que foi um dos criadores da bossa nova), Candinho (violão), Luiz
Bonfá (violão e compositor), Aurino Ferreira (sax),
João Donato (piano, acordeão e compositor), Bebeto
Castilho e Manuel Gusmão (baixo), Sylvia Telles, Claudete Soares
e Alaíde Costa (cantoras), Luiz Eça (piano) e Lucio Alves
(cantor).
A influência de Alf mudou os rumos da música brasileira
com suas composições rebuscadas, harmonicamente ousadas e
sentido melódico de beleza invulgar. Foi um passo gigantesco
para a renovação da linguagem que germinou a semente da
bossa nova.
Alf era o centro das atenções dos jovens. Um deles, o
pianista-compositor Antonio Carlos Jobim, que seria outro grande
artífice da bossa nova, fascinado pelas suas
harmonizações, aprendeu com ele os segredos da sua
concepção harmônica.
Com a gravação do clássico Rapaz de Bem, Alf
apontava os rumos a seguir, sendo considerado o pai espiritual da bossa
nova. Algumas das suas obras-primas, além de Rapaz de Bem,
são Ilusão a Toa, Céu e Mar, Fim de Semana em
Eldorado, Disa, O Que é Amar e a seminal Eu e a Brisa
foram revolucionárias bastante à frente da sua
época . . .
Outra influência decisiva foi o disco Brazilliance, do violonista
Laurindo Almeida e do saxofonista Bud Shank, realizando uma
inédita fusão de jazz com música brasileira,
causando sensação pelas audaciosas
improvisações de Shank, provando ser possível
improvisar sobre temas brasileiros, algo inimaginável na
época . . .
O violonista e compositor Luiz Bonfá deu sua
contribuição ganhando fama internacional com Manhã
de Carnaval, carro-chefe da trilha do filme Orfeu do Carnaval, e Samba
de Orfeu. Outras importantes obras suas são Menina Flor, Gentle
Rain, Saudade Vem Correndo e Mania de Maria . . .
Nos idos de 1956/57, João Gilberto ouvia exaustivamente o disco
"Chet Baker Sings". Impressionado pelo estilo coloquial de Baker, mudou
radicalmente sua maneira de cantar, deixando de imitar Orlando Silva
para adotar o estilo vocal de Baker, transformando-se no maior
ícone da bossa nova ao lado de Antonio Carlos Jobim. Sua batida
de violão originou a característica rítmica
essencial da bossa nova. Mundialmente famoso, JG continua cantando com
grande sucesso em todo o mundo.
Outro notável talento foi João Donato, cujo estilo
original influenciado pelo jazz é evidenciado em Minha Saudade,
Silk Stop, Até Quem Sabe e A Rã, entre muitos outros. Ele
radicou-se em Los Angeles em 1959, onde morou até 1973, gravando
e tocando com músicos de jazz e latinos. Donato continua em
franca atividade, gravando e bastante requisitado para turnês nos
Estados Unidos, Europa e Japão.
Historicamente coube à cantora Elizeth Cardoso gravar o primeiro
disco de bossa nova em 1958: Canção do Amor Demais, com
participação de João Gilberto no violão. A
essa altura, começava a frutífera parceria de Antonio
Carlos Jobim com o poeta Vinicius de Morais, artífice das letras
de inúmeras canções conhecidas em todo o mundo.
No mesmo ano, um grupo de jovens empolgados pelas tendências da
nova música reunia-se na casa da cantora Nara Leão para
explorarem novo repertório. Alguns participantes desses
encontros foram Roberto Menescal, Ronaldo Boscoli, Carlos Lyra, Chico
Feitosa, Durval Ferreira e Oscar Castro Neves., que contribuíram
para o sucesso do movimento com suas letras em canções de
sucesso . . .
Paralelamente, a música fervilhava nos quatro clubes do
lendário Beco das Garrafas, réplica carioca da Rua 52, de
New York. Todas as noites alguém trazia uma nova
composição, uma nova idéia, um novo arranjo.
Naqueles clubes revelaram-se Luiz Carlos Vinhas, Luiz Eça,
Sérgio Mendes, Toninho Oliveira, Dom Salvador e Tenório
Junior (piano); Baden Powell, Neco, Rosinha de Valença, Waltel
Branco e Oscar Castro Neves (violão); Claudete Soares, Leny
Andrade, Alaíde Costa e Sylvia Telles (cantoras), Raul de Souza
e Edson Maciel (trombone); Sérgio Barrozo, Tião Neto e
Manuel Gusmão (baixo); Jorge Ferreira da Silva, J. T. Meirelles
e Aurino Ferreira (sax), Edison Machado, Victor Manga, Milton Banana e
Dom Um Romão (bateria) e Maurício Einhorn (gaita). Os
instrumentistas começaram a desenvolver o samba-jazz inspirados
nas improvisações do disco de Laurindo Almeida e Bud
Shank, despontando os pequenos conjuntos Tamba Trio, Bossa Três,
Salvador Trio, Trio 3-D, Rio 65 Trio e outros . . .
A juventude brasileira foi arrebatada pela bossa nova com o disco Chega
de Saudade, de João Gilberto, definindo as bases do novo idioma
com inovações radicais na melodia, harmonia e ritmo,
sendo cultuado por músicos, cantores e ouvintes . . .
Pouco a pouco, a nova música começou a ganhar fama
internacional a partir de 1959, com quatro acontecimentos decisivos
para seu sucesso no exterior. Primeiro, o guitarrista Charlie Byrd fez
uma turnê no Brasil e, encantado com o que ouviu, gravou
vários discos com músicas brasileiras. Segundo, quando
vieram ao Brasil o conjunto American Jazz Festival e o quinteto do
trompetista Dizzy Gillespie, em 1961; ao regressarem, Gillespie, Lalo
Schifrin (piano), Zoot Sims e Coleman Hawkins (sax), Herbie Mann
(flauta) e Curtis Fuller (trombone) gravaram discos de bossa nova.
Terceiro, em 1962, Charlie Byrd e o saxofonista Stan Getz gravaram o LP
Jazz Samba, e Desafinado tornou-se um sucesso monumental da noite para
o dia em todo o mundo. Sua repercussão originou a
organização de um concerto de bossa nova no Carnegie Hall
com músicos brasileiros, abrindo um mercado internacional de
trabalho para os artistas nacionais.
No ano seguinte, Stan Getz gravou com João Gilberto e Antonio
Carlos Jobim o disco que transformou Garota de Ipanema na marca
registrada de Jobim e da bossa nova, no qual Astrid Gilberto estreou
como cantora. A essa altura, Jobim era o grande nome da bossa nova;
mundialmente famoso, seu prestígio era cada vez maior e suas
composições inspiradas eram sucessos retumbantes em quase
todos os países do planeta.
A bossa nova conquistou o público com suas belas melodias,
harmonias sofisticadas e seu ritmo sutil e original. Entre
incontáveis sucessos, ficaram para a posteridade Chega de
Saudade, Desafinado, Garota de Ipanema, Samba de Uma Nota Só,
Meditação, Corcovado, O Amor em Paz, Samba do
Avião, Inútil Paisagem, Dindi, Triste, A Felicidade,
Lígia, Vivo Sonhando, Águas de Março, Se Todos
Fossem Iguais a Você, Só Danço Samba e Insensatez
(Jobim); Influência do Jazz, Primavera, Minha Namorada, Maria
Ninguém, Se É Tarde Me Perdoa, Lobo Bobo e Você e
Eu (Carlos Lyra), Barquinho, Rio, Você e Vagamente (Roberto
Menescal), Batida Diferente, Chuva e Estamos Aí (Maurício
Einhorn).
Com o sucesso do rock e dos Beatles, a bossa nova deixou de ser a
música da juventude brasileira, embora continuasse prestigiada
no exterior até hoje.
Na geração pós-bossa nova destacaram-se Edu Lobo,
Chico Buarque, Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Marcos Valle, mas
somente este aderiu ao estilo.
Após longo período de estagnação, nas
últimas duas décadas houve um renascimento da bossa nova
no Brasil com shows, festivais, gravações e
reedições de discos daquele período que continua
sendo o mais criativo da música popular brasileira de todos os
tempos.
Bill Clinton, o popular ex-presidente dos Estados Unidos, é um
grande entusiasta do jazz desde a adolescência. Esse entusiasmo
brotou nos tempos escolares, levando-o a estudar saxofone tenor,
tocando em conjuntos das escolas e universidades que cursou, revelando
bom domínio instrumental e qualidades de improvisador.
Naturalmente suas prioridades eram outras e seu projeto de vida
direcionou-o para a política, mas nunca deixou de tocar sempre
que teve oportunidade.
Durante uma entrevista com o saxofonista Joe Henderson, em 1993, ele
contou-me que dias antes tocara com Clinton na Casa Branca. Indagado
sobre as qualidades do presidente, Henderson respondeu com boa dose de
humor:
- Toca muito bem, considerando que não é profissional.
Mas, se fosse, certamente teria sucesso. Caso ele estivesse em meu
lugar e eu ocupando o dele na Casa Branca, seria muito melhor para mim.
Joe Henderson não exagerou as qualidades do presidente,
documentadas no CD "The Pres Blows", gravado ao vivo numa
recepção que lhe foi oferecida pelo presidente da antiga
Tchecoslováquia, na qual Clinton ganhou um sax-tenor de presente
e tocou com músicos locais. Nessas gravações o
ex-presidente toca um bom solo em "Summertime".
Cinco anos depois, em 1998, o saxofonista Wayne Shorter veio ao Rio de
Janeiro tocar no extinto Free Jazz Festival. Em entrevista que me
concedeu, mencionou que dias antes tocara na Casa Branca a convite do
presidente, juntamente com Freddie Hubbard, Herbie Hancock, Ron Carter
e outros cobras. Por coincidência, nessa ocasião o
escândalo do envolvimento de Clinton com a estagiária
Monica Lewinsky estava fervilhando.
Aproveitei para perguntar-lhe sobre as propaladas qualidades de Clinton como saxofonista e Shorter teceu fartos elogios.
- O presidente toca muito bem e conhece muitas canções
standards. Tocamos "Tenderly", "Invitation", "Lady Be Good", "I Got
Rhythm", "Star Dust" e outras coisas do gênero. A certa altura
ele sugeriu que tocássemos um blues. Disse-lhe que dias antes
fizera um blues. Como era um tema inédito, toquei a linha
melódica para ele ouvir e partimos para as
improvisações.
Subitamente, rindo muito sem motivo aparente, Shorter concluiu sua narrativa:
- Quando terminamos o presidente perguntou qual o título do
blues e respondi que ainda não pensara num nome. Mantendo seu
bom humor, ele foi taxativo: "Ponha qualquer título, menos
"Blues for Monica".
Através dos tempos, o jazz criou grandes mitos como Bix
Beiderbecke, Charlie Parker, Lester Young e Billie Holiday. Outro foi o
trompetista e cantor Chet Baker.
A vida atribulada de Chesney H. Chet Baker (1929-1988) daria um grande
filme nas mãos de um bom diretor e um excelente roteirista. Ele
começou no quarteto do saxofonista Gerry Mulligan, em 1952. Sua
ascensão meteórica alçou-o do anonimato para a
fama em menos de um ano. A pedra de toque que lhe abriu as portas da
popularidade foi seu solo em "My Funny Valentine", com Mulligan, uma
das interpretações mais lírico-introspectivas de
todos os tempos. A finesse de sua abordagem melódica,
emoldurando as nuances da canção com sua sonoridade
intimista de profundo sentido emocional, causou impacto imediato,
deixando a estampa da sua personalidade musical.
Cool, sweet, lírico, reflexivo, romântico – assim a
crítica adjetivou seu estilo. Sua súbita popularidade
levou-o a formar um quarteto. Tudo parecia sorrir para ele. Logo gravou
o disco "Chet Baker Sings", marcando sua estréia como cantor.
Sua voz quase sussurrante tinha especial apelo para o
público, especialmente o feminino. Seu disco chegou às
paradas de sucesso e somente os insensíveis não se
renderam á beleza dos seus solos e vocais.
Sua aparência juvenil, cujo rosto parecia esculpido à
imagem de uma estátua grega, atraía das adolescentes
às quarentonas, conquistando qualquer uma que cruzasse seu
caminho.
Entretanto, sua sina ia mudar. Com a mesma facilidade com que subiu ao
estrelato, na proporção inversa afundou nas drogas –
vício que o levou a prisões, sanatórios, fuga dos
Estados Unidos para evitar detenções, dívidas com
vendedores de drogas, enfim, um turbilhão que o acompanhou
até o fim. Sua trágica morte ocorreu num hotel em
Amsterdam, na Holanda, quando caiu ou foi atirado da janela do seu
quarto.
A audição dos seus discos leva-nos a uma reflexão:
como um homem cuja vida repleta de sofrimento, desilusões e
desesperança extravasava sua alma atormentada com música
de tanta beleza, contrastando frontalmente com sua vida desregrada ?
Chet Baker escreveu poesia musical com sua voz e seu trompete.
O disco "Chet Baker Sings" mudou a vida de João Gilberto. Por
volta de 1956, João imitava Orlando Silva cantando no conjunto
Garotos da Lua. Diariamente ele ouvia o LP de Chet inúmeras
vezes. Encantado por aquela voz, João sofreu uma metamorfose
inacreditável, passando a cantar com o mesmo timbre intimista de
Chet. Foi quando nasceu a voz mais conhecida da bossa nova ao gravar
"Chega de Saudade", pedra fundamental do estilo que conquistou o mundo.
Durante o primeiro Free Jazz Festival, em 1985, perambulava pelas
cercanias do Hotel Nacional em companhia de meu filho Flavio, esperando
encontrar alguns músicos para um papo descontraído. Como
sempre fazia, levava LPs de vários astros para pedir seus
autógrafos. Após circular meia-hora, avistamos Chet Baker
sozinho, ao pé da escadaria do hotel. Gentil e receptivo,
esperava sua esposa que fôra fazer compras em Ipanema. Logo
iniciamos um papo informal. Ficamos quase uma hora conversando como
velhos conhecidos. Ele falou sobre sua carreira, seus planos, seu
envolvimento com drogas (sem que lhe perguntasse) e uma infinidade de
acontecimentos sobre sua vida que jamais saberia a não ser
contados por ele, além de autografar meus dois LPs..
Quando sua esposa chegou, ele pediu licença para despedir-se.
Após os votos de felicidades e sucesso, colocou a mão no
ombro do Flavio e o que lhe disse emocionou-me a ponto de eu ficar com
os olhos marejados:
- Flavio, nunca ponha um cigarro na sua boca!
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