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J.D.R.'s Short Stories on Music and Music Personalities
(continued)
- A VINGANÇA DO VIOLINISTA -
O saudoso e conceituado jornalista Lúcio Rangel
colaborou com inúmeros jornais e revistas do Rio de Janeiro,
além de ter participações importantes em
organismos ligados ao movimento cultural da cidade nos anos 50, 60 e
70.
Lúcio também fundou e editou a "Revista de Música Popular", na qual escrevia artigos, críticas de discos e concertos sobre jazz e música brasileira. Ele era ferrenho defensor da música popular brasileira tradicional, principalmente samba e choro, e ardente entusiasta do jazz tradicional. Em sua cartilha estavam abolidas as palavras moderno e moderna. Para extravasar suas preferências, execrava sem dó nem piedade todos os discos de músicos modernos do jazz e da MPB. Em sua fúria xenófoba defendia ardorosamente o tradicional, jamais perdoava os modernos. Suas críticas candentes malhavam furiosamente todos aqueles que, na sua ótica, eram profanadores da autêntica música tradicional.
Em certa ocasião, numa de suas colunas na Revista de Música Popular criticou acerbamente o violonista Fafá Lemos, abusando dos termos insultuosos. A crítica teve tamanha repercussão que durante algum tempo ocasionou comentários e debates nos meios musicais.
Atingido pelas ofensas, Fafá Lemos procurou-o para um acerto de contas. O entrevero aconteceu no restaurante onde Lúcio almoçava diariamente com seus amigos. Fafá entrou no recinto sobraçando seu inseparável violino, foi à mesa onde estava Lúcio para tomar satisfações, começando uma séria discussão em que predominou intensa troca de insultos em abundância. Após tanta gritaria e ofensas, Fafá não fez por menos: brandiu o violino na cabeça de Lúcio com tanta fúria que o instrumento ficou em frangalhos.
O caso foi parar numa delegacia e teve tanta repercussão na imprensa que durante semanas eram veiculadas noticias sobre o assunto.
Choveram cartas de solidariedade a Lúcio Rangel
na Revista de Música Popular, exceto uma. A voz discordante
solidarizando-se com o agressor Fafá Lemos foi do
jazzófilo Carlos Conde, que, modernista renitente, não
perdoava Lúcio por criticar músicos do jazz moderno,
encontrando na sua carta um meio que julgou ser uma merecida
vingança contra o jornalista.
A carta de Carlos Conde terminou assim: "Após aturar durante
anos as críticas infundadas e absurdas de Lúcio Rangel ao
jazz moderno, finalmente ele recebeu o merecido castigo por suas
heresias e falta de conhecimento jazzístico. Por esse motivo,
solidarizo-me efusivamente com Fafá Lemos, que deu ao referido
"crítico" o corretivo que todos os cultores do jazz moderno
gostariam de ter-lhe dado".
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O saxofonista alto, tenor e barítono Sonny Stitt
foi um dos mais completos e fecundos improvisadores do jazz. Alguns o
consideram um discípulo de Charlie Parker, mas, a despeito das
semelhanças estilísticas, ele desenvolveu sua
própria linguagem com sonoridade facilmente
identificável, continuidade e imaginação
virtualmente ilimitadas. Tal como Parker, foi um dos jazzmen mais
fluentes de todos os tempos, tocando com rara facilidade de construir
frases sobre frases em qualquer andamento. A discografia de Sonny Stitt
ultrapassa a marca de 250 discos/CDs em seu nome, além de
centenas de gravações com outros músicos. Ele
jamais gravou um mau solo; ao contrário, sua consistência
é objeto da atenção e admiração de
todos.
Músico extraordinário, tocava qualquer
música em qualquer tom. São conhecidas as
histórias de como ele evitava que alguns saxofonistas
indesejáveis tocassem a seu lado nas jam sessions. Entre outros,
Stan Getz e Johnny Griffin foram suas vítimas. Uma noite Stitt
tocava com seu quarteto num clube de New Jersey e Getz estava na
platéia. No intervalo, Getz manifestou vontade de subir ao
palco. Stitt.convidou-o na certeza de que o colocaria fora de
combate com uma das suas armadilhas. Stitt disse a Getz que ia tocar
"Cherokee".
Getz: Em que tom ?
Stitt: Si bemol.
Getz: Si bemol ? Só toco em Lá maior.
Stitt: Então não toque.
Getz deixou o palco sem soprar uma nota. Na noite seguinte, Getz voltou
ao clube e dirigiu-se a Sitt: "Vamos tocar "Cherokee" em Si bemol ?"
Stitt: "Não, hoje é em Fá sustenido", e Getz não tocou.
Assim ele fazia com os indesejáveis. Este episódio é contado num livro do crítico Ira Gitler.
Quando Stitt veio ao Rio, em 1979, perguntei-lhe sobre esses incidentes, respondendo:
- Eles ganham os concursos das revistas como os melhores do ano, mas, quando se trata de tocar jazz, eu engulo todos eles.
Stitt tinha o vício da bebida. No Rio, num bar próximo à Sala Cecília Meirelles, todas as noites comprava duas garrafas de vodka e as consumia numa velocidade impressionante, mas a bebida em nada afetava sua execução.
Nessa ocasião, ele contou-me que em Londres, nos
anos 60, procurou um conhecido hipnotizador famoso por curar as pessoas
do vício da bebida. Ele ia diariamente ao consultório do
hipnotizador para as sessões de cura. Depois de 10 ou 12
sessões desistiu das consultas, relatando o motivo:
- Não adiantou nada. Depois de algumas sessões, eu
não fui curado e o hipnotizador começou a beber comigo.
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O trompetista Alexis Andrade é um dos melhores músicos de jazz do Rio de Janeiro, sendo conhecido por suas atuações em vários conjuntos de jazz tradicional. Ele também tocou e gravou com o lendário clarinetista e saxofonista americano Booker Pittman, que morou no Rio nos últimos anos de sua vida.. .
Alexis tocou com a Rio Jazz Orchestra no I Festival de Jazz de São Paulo, em 1978. Seu solo em "I Can't Give You Anything But Love, Baby" empolgou a platéia. No final, o disc-jockey americano Felix Grant fez questão de abraçá-lo no camarim.
Sempre que alguns conjuntos estrangeiros de jazz
tradicional tocavam no Rio, ele subia ao palco para uma canja. Para
isso, levava seu trompete de bolso, que foi presente do amigo Booker
Pittman.
Além do idioma tradicional, Alexis também toca jazz moderno, sendo admirador de Fats Navarro, Dizzy Gillespie e Miles Davis.
Protético de profissão e músico
por diletantismo, as paredes de seu consultório estão
repletas de fotos de trompetistas e também tem um aparelho de
som para ouvir discos.
Aos 84 anos, ele ainda toca esporadicamente, tendo perdido recentemente
a esposa após 58 anos de vida em comum. Humilde, educado e
simpático, ele é estimado por todos no meio
musical.
Aléxis é fanático por Fats Navarro, que
encabeça sua lista de trompetistas favoritos, que considera o
mais completo improvisador do instrumento.
Em meados dos anos 60, como eu, ele freqüentava as Lojas Murray,
famosa loja carioca de discos citada em livros como ponto de encontro
dos jazzófilos e bossanovistas. Certo dia, ele apareceu
nervosíssimo, suando frio nas mãos e na testa. Perguntei
o que acontecera e pediu-me: "Por favor, vamos dar uma volta porque
estou apavorado. Minha mulher está fazendo uma cirurgia e
não agüento mais com tanta preocupação e
nervosismo". Saindo da loja, convidei-o para um cafézinho e
continuamos a andar, mas ele suava e tremia cada vez mais. Por mais que
tentasse acalmá-lo, pior ficava, e fiquei preocupado temendo um
ataque ou algo pior. Ao passarmos em frente a outra loja de
discos, ouvimos o som de um disco de Fats Navarro. No mesmo instante
Alexis transformou-se por completo, como se tivesse esquecido a
preocupação com a esposa. Sorriu empolgado e gritou:
"É Fats Navarro!". Entramos na loja para ouvir o disco e Alexis
sorria, vibrava, estava felicíssimo. Completamente calmo
disse-me que ia ao hospital onde a esposa estava sendo operada.
Perguntei-lhe se desejava que o acompanhasse, mas apenas agradeceu-me:
"Obrigado, não precisa. Depois de ouvir Fats Navarro, sei que
minha esposa está muito bem".
Pulando algumas décadas, há cerca de 10 anos avistei-o
com a esposa no calçadão da Avenida Atlântica, em
Copacabana. Ao ver-me, ainda de longe, gritou empolgado:
- Tem alguém melhor que Fats Navarro ?
Respondi: "Acho que não".
Ele, incisivo e eufórico, berrou a plenos pulmões:
- Acha que não ? Deixa de besteira! Nem daqui a 300 anos aparece outro como ele.