The Writings of José Domingos
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Written by José Domingos Raffaelli
(Portuguese and English)

(Portuguese)
Lester Young
27/08/1909 15/03/1959
por José Domingos Raffaelli
Há 40 anos, em 15 de março de 1959, o mundo do jazz lamentava a morte de Lester Young, criador de um estilo original nos anos 30 que revolucionou o sax-tenor, abrindo alguns caminhos para o jazz moderno. Há uma controvérsia quanto à data da sua morte. Algumas discografias informam a data 12 de março, outras, dia 15. Lee Young, irmão do saxofonista, dirimiu as dúvidas recentemente, em entrevista à revista "Jazz Times": 15 de março de 1959. Lester Young foi um inovador de estilo revolucionário inteiramente oposto ao de Coleman Hawkins, que criou a linguagem para o instrumento no jazz.
Seus primeiros discos com o pianista Count Basie, em 1936, traziam uma concepção inteiramente renovadora que encantou os músicos jovens, escrevendo uma nova história para o sax-tenor. Lester, Hawkins e John Coltrane formaram o triunvirato dos mais influentes tenoristas do jazz. Suas frases mais longas e concisas que as de qualquer improvisador que o antecedeu, inserindo novos acordes nas progressões harmônicas das canções populares, sonoridade menos volumosa que a dos outros tenoristas e uso moderado do vibrato, criaram um estilo revolucionário de concepção melódica, harmônica e rítmica.
Lester foi uma personalidade rara, um solitário de comportamento que desafiava os padrões da época. Era um contestador à sua maneira, inconformado com o modus vivendi e os conceitos sociais daquele tempo. Era homem de poucas palavras, exceto quando se divertia falando sua própria gíria; algumas expressões a ele atribuidas fazem parte do vocabulário dos jazzmen. Detestava empresários, donos de night clubs e fiscais da Federação dos Músicos, mas adorava o disc-jóquei Symphony Sid, ao qual dedicou sua composição "Jumpin' with Symphony Sid".
Algumas das suas excentricidades chamavam a atenção: a mania de falar diferente das outras pessoas, debochava dos músicos que não gostava, usava o cabelo cobrindo a nuca até o colarinho (os tempos eram outros!) e empunhava o sax-tenor nos ângulos aparentemente mais desconfortáveis na hora de tocar.
Lester Willis Young nasceu em 27 de agosto de 1909, em Woodville, Missouri, mas sua família mudou-se para Nova Orleans, onde estudou bateria, violino, trompete e sax-alto com seu pai. Os Young formaram uma pequena banda na qual tocava seu irmão Lee, baterista que veio ao Brasil com Nat King Cole. Lester deixou a banda da família aos 18 anos para tocar num pequeno conjunto, trocando o sax-alto pelo tenor.
Atuou nos conjuntos do lendário King Oliver, Art Bronson e os Blue Devils, do baixista Walter Page, que viria a ser seu companheiro na Orquestra de Count Basie. Durante esses anos, ouvia os discos de Frank Trumbauer, que tocava o sax melódico em dó, instrumento raro cujo som é um meio-termo entre o alto e o tenor; Lester apreciava a sonoridade e a concepção de Trumbauer. Tocando simultaneamen- te com os discos, ele procurava imitar o som de Trumbauer, desenvolvendo sua sonoriade peculiar que surpreendeu os músicos, na época. Conta-se que Lester levava o disco "Singin' the blues", de Trumbauer com Bix Beiderbecke, no estojo do seu saxofone.
Depois de passar alguns meses com Count Basie, em 1934, Les ter substituiu Coleman Hawkins na Orquestra de Fletcher Henderson, uma associação que resultou desastrosa. Henderson ficou decepcionado com o som de Lester, porque queria que ele tocasse no estilo de Hawkins. As coisas pioraram quando a mulher de Henderson obrigou Lester a ouvir os discos de Hawkins para absorver o seu estilo; revoltado, Lester deixou Henderson. Seis meses depois, voltava a to- car com Basie, e a partir desse momento traça sua caminhada de músico original e influente.
Em 9 de outubro de 1936, Lester grava seus primeiros discos com o quinteto Jones-Smith Inc., integrado por Carl Smith (trompete), Basie (piano), Walter Page (baixo) e Jo Jones (bateria). Das quatro músicas gravadas, sendo duas com o cantor Jimmy Rushing, "Lady be good" e "Shoe shine boy" são clássicas, autênticos microscosmos das inovações de Lester que mudaram radicalmente o estilo do tenor. Ao contrário de Louis Armstrong, Miles Davis e John Coltrane, os primeiros discos de Lester revelam um artista maduro de 27 anos, cujo estilo revolucionário desafiava o longo reinado de Coleman Hawkins. Com sua sonoridade leve e seu fraseado sinuoso, insinuante, aventurou-se fora dos acordes de "Lady be good", algo totalmente revolucionário na época, que se tornaria lugar comum no jazz moderno. Dominando inteiramente a sua arte, Lester modificou a melodia de George Gershwin a seu modo, utilizando-a como tram- polim para suas idéias e acentuações rítmicas deslocadas, mas sem subtrair nada da sua graça melódica, gerando um modo mais relax de tocar. "Lady be good" mudou o curso do jazz. Seu impacto refletiu-se sobre os músicos jovens, influenciando Charlie Parker, o grande arauto do bebop, o gui- tarrista Charlie Christian, o pai da guitarra moderna, os músicos do movimento cool jazz e várias gerações de saxofonistas, incluindo Stan Getz, Al Cohn, Zoot Sims, Brew Moore, Herbie Steward, Allen Eager, Jimmy Giuffre, Bob Cooper, Bill Perkins, além de Wardell Gray, Dexter Gordon e Gene Ammons, nomes importante da escola bebop.
A passagem de Lester pela Orquestra de Count Basie foi marcada por uma série de solos modelares em "Panassié stomp", "Jive at five", "Roseland shuffle", "Jumpin' at the wooside", "Let me see", "Tickle toe", "Swinging the blues", "Honeysuckle rose", "Easy does it", "Broadway", "Pound cake", "Texas shuffle" e "Blue and sentimental", os dois últimos, no clarinete. A maioria desses solos que foram memorizados e copiados por inúmeros saxofonistas. No clarinete, ele gravou duas preciosidades: "Pagin' the devil" e "I want a little girl" (uma das passagens mais líricas de todos os tempos), com o Kansas City Five, para o selo Commodore, em 1938.
Durante seu período com Basie, ele teve uma estupenda associação com a cantora Billie Ho- liday, com a qual gravou 49 músicas para a Columbia. Foi ela quem o apelidou "Pres", pois o considerava o presidente do sax-tenor; em retribuição, ele passou a chamá-la de "Lady Day". Dessa união nasceram al- gumas obras-primas. "When you're smiling" e "This year's kisses" são performances extraordinárias; "A sailboat in the moonlight" era a favorita de Pres, na qual ele completa as frases de Billie com admirável intuição. Seu solo de 16 compasos em "I must have that man" condensa um dos mais líricos momentos da história da música americana; sua beleza devastadora emocionou os músicos no estúdio, a ponto de Benny Goodman, que improvisou depois dele, não conseguir conter as lágrimas, tocando com extrema dificuldade.
Anos mais tarde, Billie e Lester selaram essa amizade, vivendo juntos alguns meses. Supersticioso, Lester deixou Basie em dezembro de 1940, recusando-se a gravar um disco porque era uma sexta-feira 13. Liderou um sexteto com seu ir- mão, o baterista Lee Young, e voltou a tocar com Basie por alguns meses, em 1943.
Gravou uma sessão histórica para a Keynote, que originou a versão de "Sometimes I'm happy", cujos últimos oito compassos foram copiados à exaustão. Em maio de 1944, uma sessão de quinteto, com Basie no piano, produziu a majestosa "Ghost of a chance", um modelo de equilíbrio melódico. Convocado para o exército, teve uma experiência desastrosa que afetou sua vida. Além de não se enquadrar à disciplina militar, admitiu fumar maconha ao responder um questionário. Condenado a cinco anos de prisão, teve a pena reduzida a 18 meses, que cumpriu confinado num acampamento na Geórgia. Libertado, era um homem desorientado, inteiramente dominado pelo desânimo e pela solidão. Vulverável ao álcool, às drogas, com freqüentes depressões e crises nervosas, foi para Los Angeles em busca de outros horizontes. Foi quando surgiu na sua vida o empresário Norman Granz, dando-lhe uma injeção de ãnimo.
Granz idealizou um projeto para filmar um documentário de jazz; o filme, "Jammin' the blues", premiado pela Academia de Cinema de Hollywood, apresenta Lester ao lado de Harry Edison, Illinois Jacquet, Barney Kessel e outros jazzmen. Logo a seguir, Granz produziu uma ses- são extraordinária de Lester com Nat King Cole (piano) e Buddy Rich (bateria); Lester raramente soou tão inspirado e seu entendimento com Cole produziu uma das sessões mais relax da sua carreira, muito bem complementados pelo adequado drumming de Rich. Entre as diversas faixas, deve-se realçar a inspiração de Lester e Cole nas inventivas "I cover the waterfront", "I want to be happy" e no primoroso blues "Back to the land". Lester dividiu o resto de sua vida entre pequenos conjuntos e o Jazz at the Philarmonic, grupo criado por Granz para atuar em salasa de concerto, ao lado de Coleman Hawkins, Ben Webster, Charlie Parker, Benny Carter, Roy Eldridge, Willie Smith, Dizzy Gillespie, Oscar Peterson e Barney Kessel. Ele gravou uma série de discos para o selo Aladdin, dos quais "These foolish things", "She's funny that way" e "I'm confessin' são pepitas de ouro da sua criatividade melódica.
Em março de 1946, num concerto do Jazz at the Philar- monic, a faisca do seu gênio acendeu-se em "I can't get started", criando quatro minutos de pura magia pela intensidade da sua veia melódica. Alguns críticos consideram o declínio de Lester a partir dos anos 50, mas seus discos para os selos Clef, Norgran e Verve documentam que ele sempre manteve um padrão de regularidade, mesmo sem alcançar grandes cumes.
Os CDs "The jazz giants", com Roy Eldridge, Teddy Wilson, Vic Dickenson e Jo Jones, de 1956, e "The president plays with the Oscar Peterson trio", de 1952, apresentam alguns dos melhores momentos de Lester na década de 50. Os últimos anos da vida de Lester foram marcados por alcoolismo, doenças nervosas e frqüentes internações. Ele viveu seus últimos dias num pequeno quarto de hotel na Rua 52, onde passava horas seguidas bebendo, ouvindo discos e olhando pela janela a entrada do clube Birdland, no outro lado da rua.
No início de 1959, ele foi tocar no clube Blue Note, em Paris; muito doente, sua temporada foi desastrosa. Lá gravou seu último disco, duas semanas antes de morrer. O disco documenta seu estado pré-agônico. Regressou aos EUA em 13 de março e voltou à rotina do seu quarto de hotel, onde dois dias depois foi encontrado morto.
Lester Young exerceu enorme fascínio sobre os músicos. Alguns dos seus solos foram transcritos na íntegra para pequenos conjuntos e big bands, como os de "Sometimes I'm happy", "Lester leaps in" e "Pound cake", por Lee Konitz; Ernie Wilkins também transcreveu o solo de "Lester leaps in" para as orquestras de Harry James e Quincy Jones; "Song of the islands" e "Let me see", por Bill Perkins, no álbum "On stage"; o de "Broadway, para o quinteto de saxes do inglês Pete King; o de "You're driving me crazy", foi transformado no tema "Prez-ence", de Richie Kamuca e Cy Touff; o de "Boogie woogie" transformou-se no tema "T. N. T.", de Tiny Khan.
Nos anos 70, o saxofonista Dave Pell organizou o conjunto Prez Conference, nos moldes do Supersax, com harmonizações de alguns solos de Lester, mas sem o sucesso esperado. O estilo de Lester Young transcendeu ao nível de simples influência para transformar-se em verdaderia idolatria. Lee Konitz declarou que "Pres tinha o verdadeiro som do sax-tenor"; Brew Moore foi ainda mais longe, afirmando que "quem não toca como Lester Young, está errado"; e Dexter Gordon disse que "depois que Lester surgiu, só ouvimos ele". Discografia: A discografia de Lester Young em CD está distribuida em inú- meros selos por todo o mundo. Esta é uma seleção das gravações mais expressivas de várias fases da sua carreira:
* "Basie's best" Vol. 1 e 2 (Classic Jazz) - gravações com a orquestra de Count Basie, de 1936 a 1941, incluindo matrizes Decca e Columbia.
* The complete Billie Holiday Columbia recordings" (Sony Music) - Caixa de três CDs com gravações da cantora, de 1935 a 1941. Lester Young toca em 49 faixas.
* The complete 1936-1943 small group recordings" (Blue moon) - inclui as faixas Commodore, do Kansas City 5, das sessões para a Keynote e Signature.
* "Lester Young Trio" (Verve) - com Nat King Cole e Buddy Rich; como bônus, a primeira sessão de Dexter Gordon, de 1944.
* The Aladdin sessions" (Blue Note) - CD duplo, com faixas de 1945/46, com Chuck Wayne, Joe Albany, Dodo Marmarosa, Howard McGhee e outros modernistas.
* "The president plays with the Oscar Peterson trio" (Verve) - gravado em 1952. Como curiosi- dade, os dois takes de "Two to tango" são os únicos exemplos em que Lester Young canta.
* "The jazz giants" (Verve) - gravado em 1956, com
Roy Eldridge, Vic Dickenson, Teddy Wilson, Gene Ramey e Jo Jones.
(English) [Translated by José Sanches Perez]
LESTER YOUNG
August 27, 1909 - March 15, 1959
By José Domingos Raffaelli
40 years ago, in March 15, 1959, the world of jazz was lamenting the death of Lester Young, the creator of an original style in the thirties that revolutioned the tenor saxophone, opening some ways to the modern jazz. There is a controversy about his death date. Some biographies mention March 12, other ones March 15. Lee Young, brother of the saxophonist, solved this question recently, in a interview for Jazz Times magazine: March 15, 1959. Lester Young was an innovator with a revolutionary style entirely opposite to Coleman Hawkins', who created the language for the instrument in jazz.
His first records with pianist Count Basie, in 1936, brought an entirely renovator conception that enchanted the young musicians, writing a new history for the tenor saxophone. Lester, Hawkins and John Coltrane formed the triumvirate of the most influent tenorists of jazz. His longer and concises phrases than any other improviser that anteceded him, inserting new chords in the harmonic progression of popular songs, sonority less voluminous than the other tenorists and a moderate use of the vibrato, created a revolutionary style of melodic, harmonic and rhythmic conception.
Lester had a rare personality, a solitary one whose behavior challenged the patterns of that time. He was a contestant in his own way, unreconciled with the "modus vivendi" and the social concepts of that time. He was a man of few words, except when he had fun speaking his own slang; some expressions attributed to him are part of the jazzmen vocabulary. He hated businessmen, night clubs owners and the Musician Federation inspectors, but he adored the disc-jockey Symphony Sid, to whom he dedicated his composition "Jumpin' With Symphony Sid".
Some of his eccentricities called attention: the mania of speaking in a different way from the other people, he mocked the musicians he didn't like, used a hair cut that covered the nape of the neck until the collar (the times were so different!) and holding the tenor saxophone in an apparently more uncomfortable angles while playing the instrument.
Lester Willis Young was born in August 27, 1909, in Woodville, Missouri, but his family moved to New Orleans, where he studied drums, violin, trumpet and alto saxophone with his father. The Youngs formed a small band in which played his brother Lee, drummer who came to Brazil with Nat King Cole. Lester left the family band when he was 18 years old in order to play in a small group, changing the alto saxophone for the tenor saxophone.
He actuated in the legendary groups of King Oliver, Art Bronson and the Blue Devils, from bassist Walter Page, who would come to be his colleague in the Count Basie orchestra. During these years, he listened the Frank Trumbauer records, who played the melodic saxophone in C, a rare instrument whose sound is a intermediate between the alto and tenor; Lester appreciated Trumbauer's sonority and conception. Playing simultaneously with the records, he trayed to imitate the Trumbauer's sound, developing his own peculiar sonority that surprised the musicians at that time. It was told that Lester took the record "Singin' The Blues", from Trumbauer with Bix Beiderbecke, in his saxophone case.
After being some months with Count Basie, in 1934, Lester substituted Coleman Hawkins in the Fletcher Henderson orchestra, an association that resulted a disaster. Henderson was disappointed with Lester's sound, because he wanted Lester playing in the Hawkins' style. Things got worse when Henderson's wife obliged Lester to listen Hawkins' records to absorb his style; revolted, Lester left Henderson. Six months later, he came back to play with Basie and, from this moment on, he designed his way of original and influencial musician.
In October 9, 1936, Lester records his first disc with Jones-Smith Inc. Quintet, integrated by Carl Smith (trumpet), Basie (piano), Walter Page (bass) and Jo Jones (drums). From the four recorded tunes, two of them with the singer Jimmy Rushing, "Lady Be Good" and "Shoe Shine Boy", were classical, authentic microcosm from the Lester innovations that changed radically the tenor saxophone style. Contrary to Louis Armstrong, Miles Davis and John Coltrane [. . .] the first 27 years, whose revolutionary style challenged the long reign of Coleman Hawkins. With his light sonority and winding phrasing, suggestive, he ventured out of the "Lady Be Good" chords, something totally revolutionary at that time, that would become a common place in the modern jazz. Dominating entirely his art, Lester modified the George Gershwin melody in his way, utilizing it as a bridge to his out of place rhythmic ideas and accentuations, but subtracting nothing of his melodic loveliness, generating a more relaxing way of playing. "Lady Be Good" changed the course of the jazz. Its impact reflected on the young musicians, influenting Charlie Parker, the great herald of bebop, the guitarist Charlie Christian, modern guitar's father, the musicians of the cool jazz movement and several generation of saxophonists, including Stan Getz, Al Cohn, Zoot Sims, Brew Moore, Herbie Steward, Allen Eager, Jimmy Giuffre, Bob Cooper, Bill Perkins, besides Wardell Gray, Dexter Gordon and Gene Ammons, important names of bebop school.
The passage of Lester Young by the Count Basie orchestra was marked by a series of modular solos in "Panassié Stomp", "Jive At Five", "Roseland Shuffle", "Jumpin' At The Woodside", "Let Me See", "Tickle Toe", "Swinging The Blues", "Honeysuckle Rose", "Easy Does It", "Broadway", "Pound Cake", "Texas Shuffle" and "Blue And Sentimental", the last two on the clarinet. The most part of these solos were memorized and copied by countless saxophonists. Playing clarinet, he recorded two preciousity: "Pagin' The Devil" and "I Want A Little Girl" (one of the passages more lyrical of every time), with the Kansas City Five, for the Commodore label, in 1938.
During his period with Basie he had a stupendous association with singer Billie Holiday, recording, with her, 49 songs for Columbia. It was she that put him the nickname "Press", because she considerated him as the president of the tenor saxophone; In retributing, he started calling her "Lady Day". From this joining some masterpieces were born. "When You're Smiling" and "This Year's Kisses" are extraordinary performances. [. . . ] Moonlight" was Press' favorite, in which he completes Billie phrases with an admirable intuiton. His 16 bars solo in "I Must Have That Man" condense one of the most lyrical moments of the American music history; its devastating beauty emotioned the musicians at the studio to the point that Benny Goodman, who improvised after him, didn't contain the tears, playing with extreme difficulty.
Some years later, Billie and Lester sealed this friendship by living together for some months. Superstitious, Lester left Basie in December, 1940, refusing to record a disc because it was a Friday the 13th. He lead a sextet with his brother, the drummer Lee Young and went back to play with Basie for some months, in 1943.
He recorded a historical session for Keynote, that origined the version of "Sometimes I'm Happy", whose eight last bars were copied "ad nauseam". In May, 1944, a quintet session, with Basie at the piano, he produced the majestic "Ghost Of A Chance", a melodic balance model. Recruited by the army, had a disastered experience that affected his life. He didn't fit in military discipline and admited to smoke marijuana in answering a questionnaire. He was condemned to 5 years of prision, then reduced to 18 months, that he served confined at one camp in Georgia. When he was discharged, he was a disoriented man, entirely dominated by discouragement and solitude. Vulnerable to alcohol, drugs, with frequent depressions and nervous crisis, he went to Los Angeles searching new horizons. It was when he met the businessman Norman Granz, who gave him an encouragement injection.
Granz idealized a project to film a jazz documentary, "Jammin' The Blues", that won an award from Hollywood Movie Academy, presents Lester beside Harry Edison, Illinois Jacquet, Barney Kessel and other jazzmen. Soon after, Granz produced an extraordinary session with Lester and Nat King Cole (piano) and Buddy Rich (drums); Lester rarely sounded so inspired and his understanding with Cole produced on of the most sessions [. . .] Rich adequate drumming. Among the several tracks that one must bring out the Lester and Cole inspiration are the inventive "I Cover The Waterfront", "I Want To Be Happy" and the perfect blues "Back To The Land". Lester shared the rest of his life among small groups and the Jazz At The Philarmonic, a group created by Granz to act at concerto's rooms, beside Coleman Hawkins, Ben Webster, Charlie Parker, Benny Carter, Roy Eldridge, Willie Smith, Dizzy Gillespie, Oscar Peterson and Barney Kessel. He (Lester) recorded a series of records for the Alladin label, among them "These Foolish Things", "She's Funny That Way" and "I'm Confessing" are gold stones of his melodic creativity.
In March, 1946, at a Jazz At The Philarmonic concert, the spark of his genius ignited in "I Can't Get Started", creating four minutes of pure magic by the intensity of his melodic vein. Some critics consider the Lester decline from fifties on, but his records for Clef, Norgran and Verve labels prove that he always kept a pattern of regularity, even not reaching high climax.
The CDs "The Jazz Giants", with Roy Eldridge, Teddy Wilson, Vic Dickenson and Jo Jones, from 1956, and "The President Plays With The Oscar Peterson Trio", from 1952, show some of Lester best moments in the decade of 50. The last years of his life were marked by alcoholism, nervous disease and frequent internations. He lived his last days in a small room at a 52 Street Hotel, where he passed hours drinking, listening to music and looking through the window at the Birdland club entry, on the other side of the street.
In the beginning of 1959, he went to play at the Blue Note club, in Paris; very ill, he had a disasterous tour. There he recorded his last disc, two weeks before dying. The record documents his pre-agonizing condition. Returning to the USA on March 13, he came back to his hotel room routine, where, two days later, was found dead.
Lester Young exerced an enormous fascination on the musicians. Some of his solos were transcribed in full for small groups and big bands, like "Sometimes I'm Happy", "Lester Leaps In" and "Pound Cake", by Lee Konitz; Ernie Wilkins also transcripted the solo of "Lester Leaps In" for the Harry James and Quincy Jones orchestras; "Song Of The Islands" and "Let Me See", by Bill Perkins, in the album "On Stage"; "Broadway" solo for the English Pete King's saxophones quintet; "You're Driving Me Crazy" solo was transformed in Richie Kamuca and Cy Touff's "Prez-Ence" theme; "Boogie Woogie" solo transformed in Tiny Khan's theme "T.N.T."
In the seventies, saxophonist Dave Pell organized the Press Conference groups, in Supersax patterns, with harmonizations from some Lester's solos, but without the expected success. The Lester Young style overpassed the level of simply influence to transform in true idolatry. Lee Konitz asserted that "Press had the real tenor saxophone sound"; Brew Moore got ahead affirming that "who doesn't play like Lester Young, is wrong"; and Dexter Gordon said that "after Lester appeared, we only hear him".
Discography: Lester Young discography in CD is distributed in countless labels around the world. This is a selection of the most expressive recordings from several phases of his career:
- "BASIE'S BEST" - Vol. 1 and 2 (Classic Jazz) - recordings with the Count Basie orchestra, from 1936 to 1941, including DECCA and COLUMBIA master tapes.
- "THE COMPLETE BILLIE HOLIDAY COLUMBIA RECORDINGS" (Sony Music)
3 CD set box with the female singer recordings, from 1935 to 1941. Lester Young plays on 49 tracks.
- "THE COMPLETE 1936-1943 SMALL GROUP RECORDINGS (Blue Moon)
includes the tracks Commodore from Kansas City 5 at Keynote and Signature sessions.
- "LESTER YOUNG TRIO" (Verve) - with Nat King Cole and Buddy Rich; includes bonus tracks from the 1944 first session of Dexter Gordon
(Portuguese)
LOUIS ARMSTRONG
por José Domingos Raffaelli
Biografia
Trompetista, cantor, líder e ator foi um dos maiores e mais populares músicos da história do jazz. Sua influência como trompetista e cantor é incalculável. Nascido e criado no setor pobre de New Orleans, recebeu as primeiras noções de música num reformatório. Depois de tocar em várias bandas, integrou a Creole Jazz Band, do seu mentor King Oliver. Com Oliver gravou seu primeiro solo em "Chimes Blues". Dois anos depois tocou na orquestra de Fletcher Henderson, em New York. Deixando Henderson, voltou a Chicago, iniciando uma série de discos com seu conjunto Hot Five, em 1925, desbravando novos caminhos para o jazz. Outra série com o grupo Hot Seven, em 1927/28, expandiu sua influência e sedimentou seu estilo original, com a colaboração do pianista Earl Hines. Conhecido como "Satchmo", Armstrong estabeleceu uma linguagem emancipando o solista em termos de liberdade rítmico-melódica, ampliando a extensão dos solos, até então confinados, com raras exceções, a 8 ou 12 compassos. Nesse período ele criou o scat singing, uma maneira de cantar pronunciando sílabas ininteligíveis em vez das palavras, recurso imitado à exaustão. Liderou diversas orquestras de 1928 a 1946, fez inúmeras turnês à Europa e apareceu em muitos filmes, tornando-se conhecido em todo o mundo. A partir de 1947, reativou seus pequenos conjuntos, os All Stars, com músicos do quilate de Jack Teagarden e Trummy Young (trombones), Barney Bigard e Edmond Hall (clarinete), Earl Hines e Billy Kyle (piano), Arvell Shaw (baixo), Sidney Catlett e Barrett Deems (bateria). A par da sua genialidade, Satchmo foi um notável showman que divertia o público com suas piadas e expressões faciais. Durante mais de 20 anos tocou na maioria dos países do mundo como embaixador musical do governo americano. Em 1963 gravou "Hello Dolly", desbancando os Beatles do primeiro lugar nas paradas de sucesso. "What A Wonderful World" foi outro dos seus grandes hits. Com sua obra riquíssima, ele elevou o jazz ao status de pura arte musical.
Discografia Selecionada
* The Hot Fives and Hot Sevens Vol. 1/2/3 - Columbia 460821-2/463052-2/465189-2 (1925/27)
Armstrong desbrava os caminhos do jazz explorando novas formas musicais em "Gut Bucket Blues", "Cornet Chop Suey", "Heebie Jeebies" (no qual introduz o scat singing), "Savoy Blues" e "Struttin' With Some Barbecue", com o Hot Five. Os históricos "Wild Man Blues", "Potato Head Blues", "Alligator Crawl", "S. 0. L. Blues", "Willie the Weeper", "Melancholy Blues", e o sublime "West End Blues", com o Hot Seven.
* Young Louis Armstrong (1930-1933) - RCA 15517-2 (2CDs)
Do período em que Armstrong grava com as bandas de Luis Russell e Les Hite. Sua técnica incomparável fazia o difícil parecer fácil em "Dallas Blues", "Exactly Like You", "I'm A Ding Dong Daddy", "Shine", "I'm In The Market For You", "After You've Gone" e o ebuliente "Tiger Rag", no qual alcançou mais de 40 vezes um Dó superagudo, fora do registro normal do trompete, na época inimaginável e inatingível.
* Satchmo at Symphony Hall - Decca GRD-661 (1947)
Depois de anos tocando com orquestras, Armstrong organiza seus All Stars com Jack Teagarden (trombone), Barney Bigard (clarinete), Dick Cary (piano), Arvell Shaw (baixo), Sidney Catlett (bateria) e Velma Middleton (vocal). Algumas interpretações deveriam ser guardadas numa capsula do tempo, entre elas "Mahogany Hall Stomp", "Black and Blue" e "Royal Garden Blues", um meteoro que passou pelo Symphony Hall.
* Plays W. C. Handy - Columbia 450981-2 (1955)
* Satch Plays Fats - Columbia 450980-2 (1955)
Os tributos a Handy (o pai do blues) e Fats Waller
mostram o Armstrong cinquentáo em plena forma em "Hesitating
Blues" e "Atlanta Blues" (de Handy) e "Honeysuckle Rose" e "Keepin'
Out of Mischief Now" (de Waller). Armstrong utiliza a surdina em
várias faixas, algo raro em suas gravações,
dando outro colorido à sua sonoridade.
(English) [Translated by José Sanches Perez]
LOUIS ARMSTRONG
by José Domingos Raffaelli
Biography
Trumpet player, singer, leader and actor, he was one of the biggest and most popular musicians in the history of jazz. His influence as trumpetist and singer is incalculable. Born and grown up on the poor side of New Orleans, he had the first music notions at a reform school. After playing in several bands, he integrated the Creole Jazz Band that belonged to his mentor King Oliver. With Oliver he recorded his first solo in "Chimes Blues". Two years later he played in the Fletcher Henderson's orchestra, in New York. Leaving Henderson, he came back to Chicago, initiating a series of records with his Hot Five group, in 1925, exploring new ways for jazz. In another series with the group Hot Seven, in 1927/28, he expanded his influence and consolidated his original style, with the collaboration of pianist Earl Hines.
Known as "Satchmo", Armstrong established one language emancipating the soloist in terms of rhythmic-melodic freedom, enlarging the solos extension, until then confined, with few exceptions, to 8 or 12 bars. In this period he created the scat singing, a way of singing pronounced unintelligible syllables instead of words, that was exhaustively imitated. He leaded several orchestras from 1928 to 1946, made countless tours to Europe and participated in many movies, becoming known in the whole world. Since 1947, reactivated his small groups, the All Stars, with musicians like Jack Teagarden and Trummy Young (trombones), Barney Bigard and Edmond Hall (clarinet), Earl Hines and Billy Kyle (piano), Arvell Shaw (bass), Sidney Catlett and Barret Deems (drums). Along with his ingenuity (talent), Satchmo was a notorious showman that entertained the audience with his jokes and facial expressions. During more than 20 years he played at the majority of the countries in the world as an embassador of the American government. In 1963 he recorded "Hello Dolly", outdoing The Beatles from the first place on the hit parades. "What A Wonderful World" was another one of his big hits. With his very very rich work, he elevated the jazz to the status of pure musical art.
SELECTED DISCOGRAPHY
* The Hot Fives and Hot Sevens Vol. 1/2/3 - Columbia 460821-2/463052-2/465189-2 (1925/27)
Armstrong breaks the ways of jazz exploring new musical shapes in "Gut Bucket Blues", "Cornet Chop Suey", "Heebie Jeebies" (in which he introduces the scat singing), "Savoy Blues" and "Struttin' With Some Barbecue", with the Hot Five. The historical "Wild Man Blues", "Potato Head Blues", "Alligator Crawl", "S.O.L. Blues", "Willie the Weeper", "Melancholy Blues", and the sublime "West End Blues", with the Hot Seven.
* Young Louis Armstrong (1930-1933) - RCA 15517-2 (2 CDs)
From the period in which Armstrong records with the bands of Luis Russel and Les Hite. His incomparable technique seemed to make the difficult thing an easy one in "Dallas Blues", "Exactly Like You", "I'm A Ding Dong Daddy", "Shine", "I'm In The Market For You", "After You've Gone" and the boiling "Tiger Rag", in which he reached one really sharp C for more than 40 times, above the normal trumpet tessitura, then unimaginable and unreachable.
* Satchmo at Symphony Hall - Decca GRD-661 (1947)
After years playing with orchestras, Armstrong organizes his All Stars with Jack Teagarden (trombone), Barney Bigard (clarinet), Dick Cary (piano), Arvell Shaw (bass), Sidney Catlett (drums) and Velma Middleton (vocal).
Some interpretations should be kept away inside a capsule of time, among them, "Mahogany Hall Stomp", "Black and Blue" and "Royal Garden Blues", a meteor that passed by the Symphony Hall.
* Plays W.C.Handy - Columbia 450981-2 (1955)
* Satch Plays Fats - Columbia 450980-2 (1955)
The tributes to Handy (the father of the blues)
and Fats Waller show the fifty years old Armstrong in great form in
"Hesitating Blues" and "Atlanta Blues" (Handy's compositions) and
"Honeysuckle Rose" and "Keepin' Out of Mischief Now" (Waller's).
Armstrong utilizes the mute in several tracks, something rare in his
recordings, giving another colour to his sonority.

Thelonius Monk
20 anos sem Thelonious
Publicada em: 17/02/2002 às 00:00 Leia mais:Batida do Jazz
O pianista e compositor Thelonious Monk é uma das figuras mais importantes do jazz, um músico original e inovador, de estilo e linguagem sem paralelo na música americana. Ele pertence ao restrito círculo dos inovadores do jazz, contribuindo para a completa revolução melódica, harmônica e rítmica dos anos 40; suas composições e novas idéias foram vitais para a renovação do jazz, ao lado de Dizzy Gillespie, Kenny Clarke, Charlie Christian e outros pioneiros, cristalizando o bebop que deu início à era moderna do jazz.
Por ocasião dos 20 anos do desaparecimento de Thelonious Monk, ocorrido em 17 de Fevereiro de 1982, vamos relembrar em rápidas pinceladas a gloriosa trajetória de um dos notáveis gênios do jazz. Thelonious Sphere Monk nasceu em 10 de Outubro de 1917, em Rocky Mountain, na Carolina do Norte. Ele começou no piano como autodidata, revelando desde cedo apreciável criatividade. Sem outras fontes de influência além do jazz, forjou um estilo absolutamente original. Numa entrevista à revista Down Beat, declarou: "Fui insensível às influências externas. Ninguém inspirou minhas idéias, procurei-as em mim mesmo. Tudo o que toco é diferente em melodia, harmonia, ritmo e estruturas". Entretanto, seus primeiros solos gravados ao vivo com o guitarrista Charlie Christian, no Minton´s Playhouse (um clube situado na Rua 118, no Harlem, em New York, onde se realizaram as jam sessions embrionárias do bebop), em 1941, revelam acentuada influência do estilo de Teddy Wilson. O grupo de músicos que se reunia no Minton´s fazia questão de ter comportamento diferente dos demais, linguajar próprio e criavam harmonias inusitadas para impedir que outros subissem ao palco para tocar com eles. Além disso, usavam barba, cavanhaque, chapéus extravagantes e gravatas berrantes para chamar a atenção, antecedendo em quase duas décadas a dinastia dos hippies. Entre todos, Monk era a figura mais estranha, sempre misterioso e enigmático, mesmo num círculo no qual a excentricidade era quase regra geral.
Homem de poucas palavras, solitário, taciturno e com raros amigos, seu comportamento também contribuiu para formar uma cortina de mistério em torno de sua personalidade. Uma greve geral decretada pelo Sindicato dos Músicos Americanos (conhecido como Local 802) durou mais de 2 anos, impedindo a documentação fonográfica da evolução do bebop. Por isso, a primeira sessão de gravação oficialmente documentada em disco ocorreu em Fevereiro de 1944, sob a liderança do saxofonista Coleman Hawkins comandando uma formação orquestral média da qual fizeram parte Dizzy Gillespie (trompete), Don Byas (sax-tenor), Oscar Pettifford (baixo) e Max Roach (bateria), figuras importantes na implantação do bebop.
Em 19 de Outubro de 1944, Monk gravou pela primeira vez em estúdio com o quarteto do saxofonista Coleman Hawkins (grande incentivar doo músicos bebop, embora fosse uma figura exponencial de uma geração anterior entronizada na Era do Swing) para o selo independente Joe Davis. A sessão produziu quatro faxias: "On the Bean", "Recollections", "Flying Hawk" e "Drifting On A Reed", nas quais Monk mostra que já desenvolvera o seu estilo inimitável.
Ao gravar os primeiros discos em seu nome para a Blue Note, em 1947, com maioria de suas composições originais, hoje clássicos do jazz, sua execução original aflorou com total plenitude, que contrariava inteiramente a técnica ensinada nos conservatórios, alterando a digitação e a posição das mãos em relação ao teclado, utilizando formas mais econômicas, modulações pessoais e emitindo subestruturas harmônicas. Era a marca registrada do mestre que ficaria para a história, e a essa altura era reverenciado pelos músicos como "O Alto Sacerdote do Bebop". Em seu fraseado de acordes originais e sonoridade exclusiva - mais que em qualquer outro músico - está sempre presente o elemento surpresa, indissolúvel do clima monkeano. Cada solo é repleto de passagens imprevisíveis: ora ataca vigorosamente acordes dissonantes, ora repete rápida e sistematicamente as mesmas notas, ora altera com variedade espantosa os valores das notas alternando-as com momentos de silêncio. Ele sintetiza a arte da dissonância e o silêncio irredutível, obtendo mais coloridos, sons e ritmos que qualquer outro pianista. Pela dificuldade e imprevisibilidade da sua execução, a influência de Monk refletiu-se em poucos pianistas, entre eles Randy Weston, Herbie Nichols, Mal Waldron, Stan Tracey, Cecil Taylor, Andrew Hill e Abdullah Ibrahim em diferentes graus. Além de pianista, Monk foi um compositor original com o dom inato de criar melodias de rara beleza e conteúdo, concebidas e desenvolvidas com lógica intuitiva. Suas contribuições para o repertório jazzístico foram extremame originais, com as progressões harmônicas mais ousadas e intrincadas surgidas a partir dos anos 40. Possuindo intenso sentido dramático, ele criou dissonâncias quase hipnóticas.
Paralelamente, ele é um dos raros autores - ao lado dos notáveis Duke Ellington, Billy Strayhorn e Tadd Dameron, entre alguns - que criaram bridges (segundas partes das melodias) como seqüências perfeitas das partes principais dos temas, e não como uma simples passagem inserida aleatoriamente à guisa de complermento. Em algumas das suas criações, como "Ask Me Now" ou "Ruby, My Dear", a bridge talvez seja ainda mais significativa que a linha melódica principal. Estas duas composições, mais "Round Midnight" (o grande hino de Monk que se tornou mundialmente famoso através da trilha do filme "Por Volta de Meia-Noite"), "Monk´s Mood", "Eronel", "Pannonica", "Reflctions" e "Crepesculle With Nellie", entre outras, todas superiormente elaboradas com altas doses de lirismo, rivalizam em beleza e inspiração com as melhores obras de Duke Ellington. Outras, como "Misterioso", "Thelonious", "Evidence", "Epistrophy", "Criss Cross", "Four in One", "Off Minor", "Gallop´s Gallop", "Bemsha Swing", "Rhythm-a-Ning", "Hackensack", "Trinkle Tinkle", "52nd Street Theme" e "I mean You" (a lista é interminável), são harmonicamente complexas e ritmicamente fascinantes, contrastando com o caráter descritivo das anteriores. Ainda a citar os blues "Straight, No Chaser" e "Blue Monk", os clássicos "Well, You Needn´t" e "In Walked Bud", e o ebuliente "Little Rootie Tootie", cujo título é o apelido do seu filho, o baterista T. S. Monk.
A partir dos anos 50, Monk gravou para a Prestige e a Riverside, ganhando notoriedade a partir de 1955. Em 1957, fornou um quarteto com o saxofonista John Coltrane, que despertou enorme interesse entre os músicos numa longa temporada realizaza no Five Spot Café, em New York, da qual existem registros ao vivo incluídos na caixa de 4 CDs "The Complete Blue Note Recordings". Ainda em 1957, Monk gravou um disco com os Jazz Messengers, do baterista Art Blakey, para a Atlantic, numa das suas raras aparições como sideman. No ano seguinte, formou novo quarteto, tendo o saxofonista Johnny Griffin como voz melõdica do grupo. Em 1959, reforma o quarteto, desta vez com o saxofonista Charlie Rouse, que permaneceu 11 anos com Monk. Nesse ano realizou um triunfal concerto no Town Hall e fez uma bem-sucedida temporada na Europa. Assinou contrato com a Columbia em 1962 e sua popularidade cresceu principalmente depois depois que sua foto apareceu na capa da prestigiosa revista "Time". Em 1967, fez uma temporada na Europa com um noneto integrado por Idriss Sulieman e Clark Terry (trompetes), Jimmy Cleveland (trombone), Phil Woods (sax-alto), Charlie Rouse e Johnny Griffin (sax-tenor), Larry Gales (baixo) e Ben Riley (bateria)..
Em 1971, Monk integrou o grupo Giants All Stars, criado pelo produtor George Wein, com Dizzy Gillespie, Sonny Stitt, Kai Winding, Al McKibbon e Art Blakey. Durante uma turnê do conjunto na Europa, Monk gravou seus últimos discos em trio e em piano-solo para o selo inglês Black Lion, em
Londres, em 15 de Novembro de 1971; os três CDs documentam em grande estilo a despedida do grande mestre fazendo uma revisâo da sua obra e alguns standards, incluindo uma fascinante improvisação de quase 10 minutos em "Chordially", ao experimentar o piano enquanto "esquentava", hábito normal dso pianistas antes de uma sessão de gravação. No ano seguinte, afastou-se da música por motivo de doença. Homem de poucas palavras, de temperamento arredio, nunca mais tocou. Isolando-se do mundo, passou os últimos anos de vida em casa, quase sempre na cama, sem falar com ninguém, exceto com sua esposa Nellie, entregando-se por completo à espera do fim.
A importância de Thelonious Monk no jazz ficou indelevelmente marcada pela suprema qualidade da sua obra genial, original e imortal. O seu nome será eternamente lembrado entre os grandes criadores da chamada "música dos músicos". Suas composições fazem parte do repertório da grande maioria dos conjuntos de jazz e continuam sendo gravadas em quase todos os países do mundo. Após sua morte, foram gravados mais de 100 álbuns em sua homenagem. Seu filho fundou o Thelonious Monk Institute of Jazz com a finalidade de preservar e divulgar a sua música, além de promover anualmente concursos para revelar jovens valores, estimulando sua criatividade e impulsionando suas carreiras.
No enterro de Thelonious Monk, seu velho companheiro dos tempos do Minton's, Dizzy Gillespie, em despedida emocionada, com a voz embargada pela emoção, assim falou: "Talvez tenhamos de esperar alguns séculos até que surja outro gênio como Monk. Pensando melhor, talvez nunca mais apareça outro como ele".
Discografia de Thelonious Monk:
* The Complete Blue Note Recordings - Caixa com 4 CDs
* The Complete Prestige Recordings - Caixa com 3 CDs
* The Complete Riverside Recordings - Caixa com 15 CDs
* The Complete Columbia Recordings -Caixa com 6 CDs
* Monk Alone - The Complete Columbia Solo Studio Recordings - CD duplo (1962-68)
* Piano Solos - Vogue (França)
* Thelonious Monk Nonet in Europe, 1967 - Paradoxx
* The London Collection: Volume One - Black Lion
* The London Collection - Volume Two - Black Lion
* The London Collection - Volume Three - Black Lion
Com Sonny Rollins:
* The Complete Prestige Recordings - Caixa com 7 CDs
* Sonny Rollins - Volume II - Blue Note (somente na faixa "Misterioso")
Com Dizzy Gillespie e Charlie Parker:
* Bird and Diz - Verve
Por: José Domingos Raffaelli

A vida, os triunfos e as frustrações do lendário maestro Artie Shaw
Publicada em: 14/12/2001 às 09:27 Leia
mais:Batida do Jazz
A vida do lendário maestro e clarinetista Artie Shaw daria um excelente argumento para um filme de Hollywood nas mãos de um competente roteirista. Sua vida foi pontilhada de grandes sucessos, frustrações, desilusões, súbitas retiradas da música, viagens ao exterior fugindo de suas depressões e tensões nervosas. Aproveitando a vinda da Orquestra Artie Shaw a São Paulo, o famoso músico, que liderou uma das mais
populares e bem-sucedidas big bands nos anos da Era do Swing, em entrevista exclusiva à MUSIC NET, por telefone, de Newsbury Park, Califórnia, falou sobre sua música, sua vida agitada, suas realizações e frustrações, seus planos, seus oito casamentos e outros fatos desconhecidos de sua vida repleta de acontecimentos inusitados e surpreendentes.
--- Escolhi o clarinetista Dick Johnson para liderar minha orquestra, em 1983. Estou contente que a orquestra se apresenta aí, assim os brasileiros poderão conhecer melhor a minha música. Mas, para nossa grande surpresa, Shaw revela que tocou no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial:
---- Quando me alistei na Marinha, liderei uma orquestra que viajava para divertir as tropas americanas. Tocamos numa base militar americana no norte do Brasil (obs: em Natal, Rio Grande do Norte). Parece que Harry James, Benny Goodman, Bob Crosby, Tommy Dorsey, Gene Krupa e outras orquestras também tocaram lá. Arthur Jacob Arshawsky nasceu em 23 de maio de 1910, em Nova York. Ele foi um pioneiro e inovador entre os líderes das orquestras, em vários aspectos. Foi o primeiro a agregar uma seção de cordas a uma orquestra; o primeiro a tocar e gravar músicas mexicanas; o primeiro a contratar uma cantora negra (Billie Holiday) para uma orquestra branca; o primeiro artista a alcançar a marca de 1 milhão de discos vendidos na gravadora RCA Victor, com "Begin the Beguine", em 1938, que fez de Shaw um astro da música americana e transformou a canção de Cole Porter num sucesso nacional; e também ele lançou o cantor Mel Tormé ao estrelato, em 1945.
---- "Begin the Beguine" foi meu maior sucesso. Subitamente fiquei tão popular que faturava 60 mil dólares por semana, hoje equivalente a 600 mil dólares. Aos 91 anos, Shaw revela uma memória prodigiosa, lembrando com precisão de fatos, datas e nomes. Em sua carreira liderou cinco orquestras diferentes, dissolvendo-as quando maior era a sua popularidade.
---- Dissolvi minha primeira orquestra porque não estava preparado para o sucesso que chegou rapidamente. Foi uma sucessão de triunfos que veio como uma avalanche, e eu vivia no meio daquele turbilhão, minha cabeça era um redemoinho, uma tortura e eu não agüentava mais. O maestro largou tudo e foi para o México em 1939, onde ficou oito meses na capital e em Acapulco. Ao voltar, formou outra orquestra e trouxe várias músicas mexicanas para seu repertório.
---- No México recobrei o equilíbrio emocional e a paz de espírito. Foi quando formei minha melhor orquestra e gravei algumas das melhores canções que ouvi por lá. Entre elas, "Frenesi", que foi um grande sucesso, "Taboo", "Adios, Mariquita Linda", "Besame Mucho" e "Canto Karabali" (também conhecida como "Jungle Drums"). Ao mesmo tempo, gravou canções de operetas como "Rosalie", "Vilia", "Indian Love Call" e "The Donkey Serenade" em andamento 4/4 de suingue. Foi quando começou a grande fase da orquestra. Nessa ocasião, ganhou o apelido "Rei do Clarinete", uma réplica ao clarinetista Benny Goodman, que era chamado de "Rei do Swing". Shaw tinha em suas fileiras George Auld (sax-tenor), Tony Pastor (sax-tenor e cantor), Billy Butterfield (trompete), Jack Jenney (trombone), Buddy Rich (bateria) e Helen Forrest (cantora).
---- Auld e Rich deram grande impulso modernizando a orquestra. Rich foi o mais fantástico baterista que apareceu no mundo, mas também foi o músico mais indisciplinado que conheci Essa formação gravou uma série de discos fundamentais, entre os quais "Carioca", "Back Bay Shuffle", "Traffic Jam", "Concerto for Clarinet", "Prelude in C Major" e "Stardust", o maior sucesso dessa fase.
---- Meus arranjadores eram Ray Conniff, Jerry Gray e Lennie Hayton, e eu também dei uma mãozinha em alguns arranjos. Mas paguei um preço alto pelo sucesso, começando pela debandada dos meus músicos. Benny Goodman tirou-me Billy Butterfield, Helen Forrest e George Auld, Tommy Dorsey levou Buddy Rich e Jimmy Dorsey contratou Jack Jenney.
Em compensação, anos mais tarde tirei de Goodman o compositor e arranjador Eddie Sauter. Paralelamente, como era comum na época, os líderes das big bands formavam um pequeno conjunto com um núcleo dos músicos da sua orquestra. Shaw organizou o Grammercy Five, que contou com Johnny Guarnieri, Dodo Marmarosa e Hank Jones (piano), Al Hendrickson, Barney Kessel e Tal Farlow (guitarra), Billy Butterfield e Roy Eldridge (trompete) e Tommy Potter (baixo). Shaw lembra do tempo em que Billie Holiday passou na orquestra.
---- Quando gravei "Summertime" com o grupo que acompanhou Billie, em 1936, percebi como ela era fantástica. Nunca tinha ouvido nada parecido. Naquele momento decidi que um dia ela cantaria comigo. Dois anos depois, ela estava na minha orquestra.
Billie ficou alguns meses com Shaw, quando gravou "Any Old Time", seu único disco com a orquestra. Admirada e respeitada pelos músicos, a convivência de Billie com Helen Forrest resultou numa grande amizade entre elas. Mas, aconteceram episódios desagradáveis que a obrigaram a deixar a orquestra.
---- Billie era discriminada nas turnês pelo país, sendo obrigada a usar a entrada de serviço em alguns hotéis. Várias vezes toda a orquestra abandonou os hotéis em que nos hospedávamos em solidariedade a ela, mas não adiantou. Um dia, cansada desses incidentes, ela resolveu sair, para tristeza de todos nós. Veio a guerra e Shaw alistou-se, sendo designado para liderar uma orquestra da marinha americana.
---- A orquestra tinha ótimos músicos. A seção de trompetes era formidável, com Max Kaminsky, Conrad Gozzo, John Best e Frank Beach. Também tive Sam Donahue no sax-tenor, Claude Thornhill no piano e Dave Tough na bateria. Corremos várias partes do mundo, incluindo Filipinas, Japão, Havaí e Brasil.
Ao dar baixa, o clarinetista formou nova orquestra. Sempre olhando em direção ao futuro, desta vez contou com Roy Eldridge (trompete) e os modernistas Barney Kessel (guitarra), Herbie Steward (sax-tenor) e Dodo Marmarosa (piano).
---- Foi uma banda excelente e gravamos vários sucessos, embora atravessamos um período com alguns meses da greve que proibiu as gravações de estúdio. Mesmo assim, foram perpetuados "Little Jazz", "The Maid with the Flacid Air" e "''S Wonderful", que tiveram grande repercussão entre o público.
---- Sabe que o mesmo arranjo de "'S Wonderful", de Ray Conniff, foi o trampolim para o seu sucesso 10 anos depois, quando lançou o seu primeiro disco? "The Maid with the Flacid Air" foi plagiado por Oliver Nelson, mas não lembro o título da música (obs: foi "Miss Fine"). A essa altura, Artie Shaw dissolveu novamente a orquestra, e foi viver na Espanha. Mais adiante, em `1951, escreveu sua autobiografia "The Trouble with Cinderella".
---- Sempre me interessei por literatura e meu sonho era ser escritor. Aproveitei o exílio na Espanha para descansar e tentar esquecer os problemas com meus casamentos. Inteligente, culto, bem apessoado, bem-falante e conquistador irresistível, segundo seus biógrafos, teve sucessivos casamentos com algumas beldades do cinema como Ava Gardner, Lana Turner e Evelyn Keyes, além de Kathleen Windsor, Doris Dowling e Betty Kern, filha do compositor Jerome Kern. Foi seu único momento de mau humor durante a entrevista.
---- Estava demorando essa pergunta sobre as ex-esposas. Que pena, estava gostando da entrevista. Não falo sobre isso. Vamos á pergunta seguinte. Shaw ainda tentou organizar uma nova orquestra, em 1949, que contava com os modernistas Don Faguerquist (trompete), Al Cohn e Zoot Sims (saxes-tenor).
---- Chegamos a gravar para a Decca, mas logo decidi parar. Ninguém se interessava mais pela minha música e nunca nadei contra a corrente. Passei a me dedicar aos meus contos e comecei a fazer pontas em filmes. Como ele demonstrasse ser bom ator, atuou em vários filmes, inclusive numa das versões de "Aeroporto", de grande sucesso, além de aparições em alguns seriados da TV. Shaw ainda teria duas passagens fugazes pela música. Em 1953, a pedido do produtor Norman Granz, formou um novo Grammercy Five com Hank Jones (piano), Tommy Potter (baixo), Tal Farlow (guitarra) e Irv Cotler (bateria).
---- Gravamos alguns discos para o selo Clef, de Granz, mas nada aconteceu. Foi o meu canto de cisne. Mas, ele ressuscitou seu clarinete 30 anos depois, quando organizou a Orquestra Artie Shaw.
---- Dick Johnson pediu-me que voltasse a tocar logo que começou a liderar minha orquestra. Tive de reaprender tudo, pois perdera a embocadura e meus dedos estavam emperrados. Toquei alguns sucessos antigos com a orquestra, mas depois de algumas semanas resolvi parar de vez.
---- Meus maiores sucessos ? Foram muitos, mas os que marcaram definitivamente minha vida foram "Stardust", "Begin the Beguine" e "Frenesi". Sem eles, talvez minha vida tivesse sido diferente. Bastante lúcido e de raciocínio ágil, antes da despedida Artie Shaw nos surpreende novamente com uma revelação:
---- Vocês têm um grande clarinetista no Brasil. Chama-se ... (faz uma pausa para lembrar) Severino Araújo. Há anos ganhei um disco dele. Gostei do seu estilo fluente de sonoridade limpa e excelente técnica. Ele ainda toca ?
Por: José Domingos Raffaelli

Dez anos sem Miles Davis
Publicada em: 28/09/2001 às 09:08 Leia
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Há 10 anos, em 28 de Setembro de 1991, morreu aos 65 anos o trompetista e compositor Miles Davis, que durante quatro décadas contribuiu com sua influência para difundir e popularizar o jazz. A sonoridade inconfundível de Miles, de tonalidade quase sem vibrato, por vezes melancólica e outras agressiva, foi imitada exaustivamente por trompetistas de todo o mundo. Seus solos, fossem investigativos ou sussurando a melodia de uma balada, foram modelos para várias gerações de músicos. Outros trompetistas possuiam mais técnica que ele, podiam tocar frases mais velozes, mais articuladas e com maior volume de som,. mas a influência de Miles foi marcante por saber alternar as frases com momentos de silêncio.
Miles teve atuação importante no jazz porque nunca se deteve em um único estilo, sempre olhando em direção ao futuro. Ele projetou-se a partir dos anos 40 no quinteto do saxofonista-alto Charlie Parker, um dos que assentaram as diretrizes do bebop; depois vieram o cool jazz, o hard-bop, o modal jazz, o jazz-rock e investiu pelo funk. Em sua longa carreira também flertou com o pop, flamenco, música árabe e indiana.
Miles também ficou conhecido por sua personalidade arrogante, criticando tudo que lhe desagradava, sem meias palavras, e sua presença no palco refletia maneiras pouco educadas, tocando de costas, cuspindo no chão e deixando o palco quando não solava.
Miles Dewey Davis nasceu em 25 de Maio de 1926, em Alton, Illinois, e cresceu em Saint Louis. Começou sua carreira aos 15 anos na banda de Eddie Randall. Mas, o início da sua ascensão foi quando a orquestra de Billy Eckstine fez uma temporada em Saint Louis, em 1944, na qual atuavam Charlie Parker e Dizzy Gillespie (trompete); Miles tocou dua semanas na orquestra substituindo um dos músicos. Depois dessa experiência, decidiu ir para New York tentar a sorte. Na Big Apple, matriculou-se na Escola de Música Juilliard e à noite perambulava pelos clubes de jazz, por vezes dando canjas. Logo ele estreitou a amizade com Parker, com quem dividiu um apartamento. A primeira gravação de Miles foi com o saxofonista Herbie Fields; em Maio de 1945; ele também tocou com os saxofonistas Coleman Hawkins e Eddie Davis. Em Setembro, juntou-se ao quinteto de Charlie Parker, com quem gravou uma das primeiras sessões bebop, em Novembro de 1945, que rendeu as obras-primas "Now's the Time" e "Ko-ko.". Nos anos seguintes, continuou com Parker, e, em Agosto de 1947, gravou pela primeira vez como líder,com um quinteto que contava com Parker no sax-tenor. Com o grupo de Parker, tocou no Festival de Jazz de Paris, em 1949, quando manteve um curto romance com Juliette Grecco, a musa dos existencialistas franceses.
Mas, Miles buscava outras formas, queria afastar-se da extroversão do bebop, pois sua técnica não era suficiente para executar as arrojadas frases do estilo, exigindo um virtuosismo que ele não tinha. A partir de 1948 começou a experimentar um novo estilo orquestral mais elaborado que seria conhecido como cool jazz. Unindo-se aos arranjadores Gil Evans, John Lewis e Gerry Mulligan, aos quais admirava muito, liderou um noneto no clube Royal Roost que tocava arranjos com uníssonos de grande riqueza harmônica, com uma sonoridade coletiva muito mais etérea e suave que o bebop. Por sorte, Miles conseguiu um interessado em gravar o conjunto para a Capitol, em 1949 e 1950, originando o disco "The Birth of the Cool", que marcou o nascimento do cool jazz. Alguns músicos questionaram aimportância de Miles na concepção do cool jazz; para eles, os cabeças do novo estilo foram Evans e Mulligan, mas deram a liderança do grupo a Miles porque ele era o músico mais conhecido entre os envolvidos no projeto. A bem da verdade, mesmo inconscientemente, Miles antecipou o cool jazz nos solos de "Embraceable You", "Out of Nowhere" e "Don't Blame Me", que gravou com Parker, em 1947; empregando a surdina cup, suas intervenções foram construídas através de frases improvisadas com extrema frieza, sem nenhuma vibrato, quase como um sussuro. Ali, verdadeiramente, nasceu o cool jazz, embora os livros dos historiadores nada registrem a respeito.. Mas, seu envolvimento com drogas prejudicou seus solos, que eram repletos de falhas de execução e de embocadura, como atestam seus discos entre 1951 e 1953. No ano seguinte superou o vício, iniciando uma série de gravações com pequenos conjuntos de estúdio. "Walkin'", um blues de harmonias bebop alteradas, o distanciaram do cool jazz, buscando uma nova expressão para o bebop. Além de"Walkin'", em 1954 gravou vários discos importantes com o saxofonista Sonny Rollins e os pianistas Horace Silver e Thelonious Monk.
No ano seguinte, começa seu caminho para a fama ao receber consagradora ovação no Festival de Jazz de Newport. Logo formava seu primeiro quinteto, com John Coltrane (sax-tenor), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo) e Philly Joe Jones (bateria), que seria o pequeno conjunto mais influente dos anos 50, ao lado dos grupos de Clifford Brown-Max Roach, de Art Blakey e de Horace Silver. O hard-bop estava estabelecido. .O quinteto gravou seis álbuns para a Prestige, em 1955/56, mas logo depois ele assinou com a Columbia, onde permaneceu até 1985. Em seu primeiro disco para a Columbia, "Round About Midnight", ele iniciou a popularização da bela melodia de Thelonious Monk com uma interpretação e arranjo originais, utilizando a surdina harmon com propriedade, cuja sonoridade exclusiva patenteou a marca registrada das suas execuções de balada e foi imitada à exaustão.
Na segunda metade dos anos 50, Miles gravou discos orquestrais com Gil Evans ("Miles Ahead", "Porgy & Bess" e "Sketches of Spain") e com seu quinteto, sendo "Round About. Midnight" um dos mais significativos. Em 1957, gravou a trilha do filme "O Ascensor Para o Cadafalso", em Paris, ao lado de Barney Wilen (sax-tenor), René Urtreger (piano), Pierre Michelot (baixo) e Kenny Clarke (bateria). Ao voltar para os Estados Unidos, aumentou seu quinteto para sexteto, com a presença de Cannonball Adderley (sax-alto). O primeiro disco do sexteto, "Milestones", trouxe outra mudança na música de Miles, com temas de menos acordes e harmonias mais extensas, inaugurando o jazz modal na faixa-título..Entretanto, foi em 1959, com a gravação do clássico "Kind of Blue", que Miles incorporou definitivamente as escalas modais ao repertório do jazz, contando com o pianista Bill Evans, cuja influência começava exercer nos círculos do jazz. A partir desse disco, centenas de músicos passaram a adotar o jazz modal, inclusive John Coltrane, que se desligaria de Miles para seguir seu caminho, mais tarde enveredando pelos interstícios do jazz de vanguarda. Aos poucos, o pessoal dos seus grupos foi-se modificando, e, em 1964, ele contava com a formação mais importante dos anos 60, com Wayne Shorter (sax-tenor), Herbie Hancock (piano), Ron Carter (baixo) e Tony Williams (bateria).
No final da década de 60, Miles tinha outras idéias, começando a experimentar os ritmos de rock nos álbuns "Miles In the Sky" e "Filles de Kilimanjaro", inclusive utilizando instrumentos eletrônicos. Inconformado com a preferência dos jovens, que estavam trocando o jazz pelo rock, decidiu que o melhor caminho seria tentar uma nova fórmula que pudesse conquistar aquele segmento do público. Gravou "In A Silent Way", em 1968, com a instrumentação do grupo acrescida de teclados eletrônicos e guitarra. Utilizando um beat roqueiro, a música era por vezes abstrata. Em "Bitches Brew", com uma formação ainda maior (trompete, sax-soprano, clarone, dois baixistas, três tecladistas, três bateristas e um percussionista), o resultado foi um tipo de música amorfa, sem qualquer tema delineado, com solos e ensembles agressivos. A edição do álbum "Bitches Brew" foi completamente diferente da música que tocaram no estúdio, pois os produtores a alteraram substancialmente, cortando inúmeros trechos e adicionando outros, sem obedecer qualquer seqüência da música gravada. Na ocasião, o crítico Peter Watrous escreveu no New York Times que "a música do álbum era uma grande mentira, pois foi uma montagem que não correspondeu ao que os músicos tocaram no estúdio". Mesmo assim, Miles desencadeou a explosão do jazz-rock, um tipo de música comercial com muito rock e raras pitadas de jazz que não trouxe nenhuma contribuição artística, apenas novas técnicas de gravação em estúdio.
Os principais elementos do chamado jazz-rock foram: 1) instrumentos eletrônicos modificados para alterar as sonoridades; 2) teclados e sintetizadores para criar múltiplos novos efeitos sonoros; 3) ritmos com presença maciça de instrumentos de percussão sobre um beat de rock, incluindo bongôs, congas, cow bells, chimes e blocos de madeira. A controvérsia tomou conta dos músicos e da imprensa. Naquela ocasião, Miles declarou: "tudo que quero é ter uma banda de rock". Estava decretado seu afastamento do jazz.
Esse dois discos e as apresentações de Milles nos auditórios Fillmore East e Fillmore West Rock caíram no gosto da audiência do rock. "Bitches Brew" vendeu 400.000 cópias. Seu objetivo foi alcançado. Alguns músicos que tocaram com Miles enveredaram pelo mesmo caminho, originando os conjuntos Mahavishnu Orchestra (de John McLaughlin), Lifetime (de Tony Williams), Weather Report (de Wayne Shorter e Joe Zawinul), e Return to Forever (de Chick Corea). Com eles, acentuado número de músicos jazz mudaram os rumos de sua música, adotando esse caminho comercial do sucesso fácil.
Em Maio de 1974, Miles deu três concertos caóticos no Teatro Municipal do Rio, conforme descrevi em artigos em jornais e no meu livro "Miles Davis, Vida e Obra" (Edições Mundo Livre, 1978). Suas apresentações foram lastimáveis, pois estava completamente drogado, tocando frases sem nexo com o trompete eletrificado acionando indefinidamente o pedal, apoiado por uma barragem de instrumentos eletrônicos, duas guitarras e percussionistas, resultando numa autêntica hecatombre universal sonora. Para piorar as coiss, Miles beirou o ridículo ao tentar tocar piano elétrico, pressionando duas notas do teclado durante vários minutos com os dedos indicador e médio. O saxofonista Dave Liebman e o baterista Al Foster, os únicos que tentavam salvar as coisas, estavam perdidos, engolidos pela barragem sonora e pelos altíssimos decibéis. Terminado o concerto, fui aos camarins e, para surpresa dos músicos, dei-lhes a notícia da morte de Duke Ellington, que eles ainda não sabiam, ocorrida naquela manhã de 24 de Maio. Ao sair do camarim carregado por três pessoas, o estado deplorável de Miles impedia-o de caminhar, ouvir ou até mesmo falar. Em São Paulo, cancelou seu último concerto para regressar às pressas à New York, pois seu estado piorou ainda mais.
No disco "On the Corner", a instrumentação do seu grupo incluiu tabla indiana e cítara. Nos álbuns "Dark Magus" e "Pangaea", melodia e harmonia foram totalmente abandonadas e a música era outra barragem de ritmos com a parafernália eletrônica acionada a todo vapor.
No final de 1975, após grave acidente, muito doente e com sérios problemas de drogas, Miles submeteu-se a uma série de operações, inclusive trocando todo o sangue do seu corpo. Reapareceu em 1981, com grande estardalhaço da imprensa,mas a música era ainda mais amorfa e comercial. Em 1986 assinou com a Warner, e sua música afundou ainda mais nos discos."You're Under Arrest", "Tutu" e "Music From Siesta". Em 1990, lançou sua autobiografia, contando com linguagem por vezes bastante grosseira as peripécias da sua vida agitada e desregrada, descrevendo cada episódio com cores demasiadamente vivas, próprias do seu linguajar incontrolável.
Depois de 22 anos sem tocar um único "chorus" de jazz, Miles abriu uma exceção no Festival de Montreux, em 8 de Julho de 1991, recriando a temática da série "The Birth of the Cool" à frente de uma orquestra regida por Quincy Jones, lançado no CD "Miles & Quincy Live At Montreux". Foi o seu canto do cisne.
Sua última aparição em público foi no JVC Jazz Festival, em New York. Novamente, no New York Times, o crítico Peter Watrous descreveu-a como "uma péssima noite em que Miles foi incapaz sequer de sustentar algumas notas,.mostrando que seu estado de saúde é muito abaixo do precário, e que, lamentavelmente,.seu fim está perto". As palavras proféticas de Watrous se confirmaram dois meses depois, em 28 de Setembro.
Por: José Domingos Raffaelli